Zé Renato brilha no palco do Teatro Ipanema ao cantar o afrossamba ‘Consolação’ e o samba-canção ‘Duas horas da manhã’ no show ‘Samba e amor’
Rodrigo Goffredo
♫ CRÍTICA DE SHOW
Título: Samba e amor
Artista: Zé Renato
Data e local: 10 de março de 2026 no Teatro Ipanema (Rio de Janeiro, RJ)
Cotação: ★ ★ ★ ★
♬ Na casa em que Zé Renato cresceu, todo mundo era bamba – a começar pelo pai do artista, Simão de Montalverne, falecido em 1988. Jornalista, cronista da noite boêmia, Simão organizava serestas em que batiam ponto nomes como o cantor Sylvio Caldas (1908 – 1988). Foi a partir dessas memórias afetivas que Zé Renato estruturou o roteiro do show “Samba e amor”, atração do projeto “Terças no Ipanema”, do Teatro Ipanema, no Rio de Janeiro (RJ), nas terças-feiras deste mês de março.
Na segunda das quatro apresentações do show, feita na noite de 10 de março, Zé Renato cantou samba com amor pelo gênero e com devoção aos bambas, reiterada no feat com Paulinho Moska, convidado da apresentação de ontem.
Com Moska, Zé cantou primeiramente a única parceria dos dois artistas, “Cama da ilusão” (2000), samba que repousa em algum lugar do passado da velha guarda, celebrada pelos artistas no canto expansivo de “Dupla genial” (1990), samba feito por Monarco (1933 – 2021) com Delcio Carvalho (1939 – 2013) para saudar os pioneiros Alcebíades Barcelos (1902 – 1975) e Armando Marçal (1902 – 1947), integrantes de dupla, conhecida como Bide & Marçal, que contribuiu para a consolidação do samba carioca nos anos 1930.
No fim do show, antes do bis em que anfitrião e convidado cantaram “Desde que o samba é samba” (Caetano Veloso, 1993), Zé e Moska puxaram o partido alto “Cabô” (Zé Renato e Pedro Luís, 2000), música-título de um dos álbuns mais luminosos da discografia solo de Zé Renato. Embora pautada por menor rigor estilístico no canto (houve até assumido erro na letra de “Cama da ilusão”), a participação de Moska foi feita em tom maior, injetando calor e humor na apresentação.
Antes, dividindo o palco com o percussionista Paulino Dias e o violonista Carlinhos Sete Cordas, Zé Renato seguiu roteiro em que transitou por várias vertentes do samba, com direito à música inédita, “A santa do Engenho Novo” (Zé Renato e Leonardo Lichote, 2026), estrategicamente cantada por Zé antes de visitar “365 igrejas” (Dorival Caymmi, 1946), samba lançado há 80 anos.
Como é notório, Zé Renato é um dos maiores cantores brasileiros dos últimos 50 anos. A voz mais conhecida do Boca Livre se expandiu na trilha seguida por Zé paralelamente ao trabalho com o grupo (que apronta álbum com o repertório de Edu Lobo para este ano de 2026).
No show “Samba e amor”, batizado com o samba lançado pelo autor Chico Buarque em 1970 e revivido por Zé Renato na abertura do roteiro, o cantor ofereceu grande interpretação de “Duas horas da manhã” (Nelson Cavaquinho e Ari Monteiro, 1972), depurando melancolicamente o existencialismo desse samba-canção de Nelson Cavaquinho (1911 – 1986) com o choro da cuíca de Paulino Dias.
Alguns números depois, o canto do afrossamba “Consolação” (Baden Powell e Vinicius de Moraes, 1963) resultou em outro momento brilhante do show. Já na introdução o batuque de Paulinho Dias evocou toda a ancestralidade afro-brasileira entranhada no samba e valorizada pela trama dos violões de Carlinhos Sete Cordas (ás do instrumento) e Zé Renato que entraram depois.
Aliado ao canto do artista, mais enérgico nesse número, o exuberante arranjo fez de “Consolação” o momento mais vibrante e perfeito do show. Em contrapartida, Zé Renato se mostrou menos à vontade para temperar “Siri recheado e o cacete” (1980) com toda a picardia sinuosa deste samba de João Bosco e Aldir Blanc (1946 – 2020).
Mas Renato pareceu em casa de bamba quando deu voz ao xará Zé Ketti (1921 – 1999), triplamente representado no roteiro com o canto de “A voz do morro” (1955), “Malvadeza Durão” (1959) e “Diz que fui por aí” (Zé Ketti e Hortênsio Rocha, 1964).
Com duas músicas emblemáticas da parceria de Noel Rosa (1910 – 1937) com Vadico (1910 – 1962) no roteiro, “Feitio de oração” (1933) e “Feitiço da Vila” (1934), o show “Samba e amor” transcorreu envolvente, se revelando mais um acerto da curadoria de Flávia Souza Lima no projeto “Terças no Ipanema”. Até porque Zé Renato é bamba e o amor do artista ao samba é coisa de família.
Zé Renato (à esquerda) recebe Paulinho Moska na segunda das quatro apresentações do show ‘Samba e amor’, atração do projeto ‘Terças no Ipanema’, do Teatro Ipanema
Rodrigo Goffredo
