Evento internacional reuniu lideranças de todo o planeta em Nova York e reforçou o papel da juventude indígena na construção de um futuro sustentável
A 24ª Sessão do Fórum Permanente das Nações Unidas sobre Questões Indígenas (UNPFII), realizada na segunda quinzena de abril, em Nova York, reforçou a urgência de ouvir — e agir — a partir das vozes dos povos originários. Com o tema “Línguas Indígenas, Povos Indígenas e Autodeterminação”, o evento contou com a participação de delegações de diferentes continentes, entre elas, representantes do Acre, como a jovem Jamilly Shakuany e seu pai, o Cacique Ninawa Huni Kui.

O encontro é o principal espaço de diálogo indígena no sistema das Nações Unidas, e neste ano, trouxe ao centro do debate a conexão entre identidade, território, governança e o direito de cada povo decidir seu próprio destino.
Na oportunidade, debateu-se o fortalecimento das línguas indígenas. Em alusão à Década Internacional das Línguas Indígenas (2022-2032), o Fórum destacou a preservação dos idiomas originários como base da resistência cultural e da autodeterminação.
Além disso, discutiu-se as mudanças climáticas e territórios. Representantes denunciaram o avanço de projetos extrativistas e a ausência de consulta prévia em megaprojetos de infraestrutura.
Juventudes indígenas e espaços de poder também centralizou o debate ao longo do evento. Na ocasião, jovens lideranças foram protagonistas em painéis sobre direitos humanos, participação política e educação intercultural.
Por fim, segurança alimentar e conhecimentos tradicionais ganharam força no debate. Alertas foram feitos sobre a perda de biodiversidade e a invisibilização dos saberes ancestrais que garantem a sobrevivência de comunidades inteiras.
Demarcação de terras
A ministra dos Povos Indígenas do Brasil, Sônia Guajajara, participou da sessão de abertura e reafirmou o compromisso do país com a demarcação de terras e o fortalecimento de políticas públicas voltadas aos povos originários.
“Os povos indígenas são os guardiões da floresta e os primeiros a sofrer com os impactos das mudanças climáticas. Por isso, nossa participação em fóruns como este não é apenas simbólica — é vital para o futuro do planeta”, afirmou Guajajara.
Já o presidente do Fórum, o diplomata indígena chileno Francisco Calí Tzay, alertou para a falta de implementação efetiva das recomendações já aprovadas em sessões anteriores. “É preciso que os Estados deixem de tratar os povos indígenas como tema periférico. Somos centrais para a agenda climática, para a justiça social e para a governança democrática.”

Do Acre para o mundo: juventude Huni Kui leva mensagem à ONU
Na bagagem, os representantes acreanos carregaram cantos sagrados, conhecimentos ancestrais e uma mensagem clara: sem os povos indígenas, não há futuro possível para a humanidade. A jovem Jamilly Shakuany, em entrevista exclusiva ao Correio OnLine, falou sobre sua participação no evento e o impacto de levar sua voz ao cenário global.
Jamilly ressalta a importância do Fórum, tendo em vista que solidifica o debate, mas, de acordo com a jovem, faz-se necessário acompanhamento após o evento para que as falas não ecoem apenas durante os dias de debate.
“O espaço é importante, mas é fundamental que exista um acompanhamento após o fórum. Precisamos ter a certeza de que nossas falas não ficam apenas no papel ou no discurso, mas se transformam em ações reais, assumidas com responsabilidade pelos representantes e autoridades presentes”, disse ela.

Confira a entrevista na íntegra:
O CORREIO – O que mudou dentro de você ao pisar na sede da ONU como representante do seu povo?
JAMILLY – O sentimento mais forte foi de gratidão e responsabilidade. Estar na sede da ONU representando não apenas o meu povo, mas toda uma comunidade indígena — especialmente a juventude — é algo muito significativo. Foi um momento que me marcou profundamente, me fez perceber o quanto nossa voz tem poder quando ecoa em espaços tão importantes.
O CORREIO – Muitos jovens indígenas carregam hoje uma luta ancestral e, ao mesmo tempo, transitam entre dois mundos. Como você equilibra tradição e modernidade?
JAMILLY – A tradição é parte essencial de quem somos. Usamos nossas roupas tradicionais, nossas medicinas, pinturas e cantos sagrados com orgulho. Esses elementos nos acompanham onde quer que estejamos. Ao mesmo tempo, também ocupamos espaços na sociedade moderna, estudamos, trabalhamos, nos conectamos com o mundo. O equilíbrio está em nunca deixarmos de ser quem somos, mostrando nossa cultura sempre que possível, porque ela nos fortalece — mesmo em contextos que parecem distantes da floresta.
O CORREIO – Você sente que o Fórum realmente escuta os povos indígenas ou ainda existe uma barreira entre o discurso diplomático e a realidade da floresta?
JAMILLY – O Fórum Permanente é, sim, uma grande oportunidade. Ele nos dá voz dentro da ONU, nos permite participar de diálogos e apresentar recomendações junto aos países. No entanto, acredito que ainda existe uma certa barreira. O espaço é importante, mas é fundamental que exista um acompanhamento após o fórum. Precisamos ter a certeza de que nossas falas não ficam apenas no papel ou no discurso, mas se transformam em ações reais, assumidas com responsabilidade pelos representantes e autoridades presentes.
O CORREIO – Qual foi o momento mais emocionante ou impactante que você viveu até agora nessa experiência internacional?
JAMILLY – Sem dúvida, o momento em que li nossa intervenção diante de representantes de vários países. Foi uma experiência marcante, daquelas que ficam para sempre na memória. Ali, senti que não estava apenas representando o meu povo, mas toda uma geração de jovens lideranças indígenas. Foi emocionante perceber que, naquele instante, nossa voz estava sendo ouvida pelo mundo.
Encaminhamentos e desafios: o que resultou a 24ª Sessão da ONU

Mais do que um espaço de escuta, a 24ª Sessão do Fórum Permanente das Nações Unidas sobre Questões Indígenas trouxe encaminhamentos concretos para fortalecer os direitos dos povos originários em todo o mundo. Entre as decisões preliminares aprovadas e enviadas ao Conselho Econômico e Social da ONU (ECOSOC), estão três resoluções estratégicas: o reconhecimento da educação indígena autônoma, a exigência da implementação efetiva da Declaração da ONU sobre os Direitos dos Povos Indígenas e o fortalecimento da presença de lideranças indígenas nos espaços de decisão do sistema ONU.
Outro ponto de destaque foi a ênfase no Consentimento Livre, Prévio e Informado (CLPI) — um princípio essencial para a proteção dos territórios indígenas frente a projetos de exploração econômica, como os de mineração e infraestrutura. O Fórum reafirmou que nenhum projeto pode ser implementado em terras indígenas sem consulta real e respeitosa às comunidades afetadas.
A educação também entrou no centro do debate. Representantes cobraram que os Estados invistam em modelos educacionais construídos e conduzidos pelos próprios povos indígenas, livres de imposições coloniais e que valorizem os saberes ancestrais, as línguas nativas e a vivência comunitária.
A juventude indígena, tema transversal da edição deste ano, teve atuação decisiva em painéis e atividades paralelas, inclusive com o anúncio da terceira edição do Fórum Global da Juventude Indígena, coordenado pela FAO em parceria com o Caucus Jovem.
Entretanto, nem tudo foi celebração. Muitos representantes indígenas tiveram seus vistos negados para os Estados Unidos, o que impediu sua participação presencial no evento. A situação acendeu um alerta sobre o acesso desigual aos espaços internacionais de decisão e levou o Fórum a discutir formas de garantir a presença física de lideranças nos próximos encontros.
“O espaço da ONU é importante, mas ele precisa ser efetivo. O que dizemos aqui precisa virar política pública, ação concreta. A nossa fala tem que sair do papel e entrar na vida das comunidades”, pontuou uma liderança durante os debates finais da sessão.
A expectativa agora é que os encaminhamentos acordados em Nova York se traduzam em mudanças reais nos territórios, com os Estados assumindo suas responsabilidades frente às recomendações do Fórum. Afinal, como disseram os próprios participantes, “não há justiça climática, social ou econômica sem os povos indígenas no centro das decisões”.
