Uso da internet por crianças pequenas mais que dobra no Brasil em menos de dez anos

Foto: Agência Brasil 

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O acesso à internet entre crianças na primeira infância mais que dobrou no Brasil desde 2015, evidenciando uma mudança profunda na relação das famílias com as tecnologias digitais. Em menos de uma década, o percentual passou de 11% para 23%, alcançando quase metade dos bebês de até 2 anos e mais de dois terços das crianças entre 3 e 5 anos.

Os dados constam no estudo Proteção à primeira infância entre telas e mídias digitais, divulgado nesta terça-feira (17) pelo Núcleo Ciência Pela Infância (NCPI). A publicação reúne evidências nacionais e internacionais sobre os impactos do uso precoce e excessivo de dispositivos digitais no desenvolvimento infantil.

Segundo o levantamento, 44% das crianças de até 2 anos já têm contato com a internet, apesar de a Sociedade Brasileira de Pediatria recomendar a ausência total de telas nessa faixa etária. Para crianças entre 2 e 5 anos, a orientação médica é de uso limitado a, no máximo, uma hora por dia, sempre com acompanhamento de um adulto.

O estudo aponta que fatores socioeconômicos influenciam diretamente o tempo de exposição às telas. Entre crianças de famílias de baixa renda, 69% são expostas a períodos considerados excessivos de uso de dispositivos digitais.

De acordo com os pesquisadores, quanto menor a renda familiar, maior a probabilidade de as telas ocuparem o espaço do brincar, da interação social e do convívio familiar — elementos fundamentais para o desenvolvimento cognitivo, emocional e social na infância.

Para a professora Maria Beatriz Linhares, coordenadora da publicação e docente sênior da Universidade de São Paulo (USP), em Ribeirão Preto, o cenário revela um problema estrutural. “O tempo excessivo de tela na primeira infância, especialmente entre crianças de famílias de baixa renda, evidencia sobrecarga, falta de apoio e ausência de políticas que auxiliem essas famílias”, afirma.

Ela ressalta que o desenvolvimento infantil depende de experiências humanas diretas. “Sem interação, sem brincar e sem presença, as crianças perdem oportunidades essenciais para desenvolver linguagem, vínculos afetivos, regulação emocional e habilidades sociais”, completa.

Os resultados dialogam com a pesquisa Panorama da Primeira Infância: o que o Brasil sabe, vive e pensa sobre os primeiros seis anos de vida, realizada pela Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal. O estudo ouviu 822 cuidadores de crianças de 0 a 6 anos e revelou que 78% das crianças de até 3 anos têm contato diário com telas, mesmo com o reconhecimento, por parte dos responsáveis, da necessidade de impor limites.

O material divulgado pelo NCPI associa o uso intenso de mídias digitais a alterações na anatomia cerebral, com possíveis prejuízos ao processamento visual e a funções cognitivas como atenção, linguagem, reconhecimento de letras e cognição social.

A professora Maria Thereza Souza, do Departamento de Psicologia da Aprendizagem, do Desenvolvimento e da Personalidade da USP, explica que o uso passivo e prolongado de telas pode afetar áreas do cérebro ligadas à linguagem, à regulação emocional e ao controle de impulsos.

“A exposição a conteúdos inadequados, bem como o uso excessivo de telas sem mediação, pode comprometer o desenvolvimento infantil. Mesmo desenhos animados, quando consumidos de forma intensa, estão associados a dificuldades de atenção em crianças de 3 a 6 anos”, afirma.

O estudo também alerta para os riscos da exposição a conteúdos violentos, que podem reduzir a atividade de áreas cerebrais responsáveis pela regulação do comportamento e aumentar a ativação de regiões associadas à agressividade. Pesquisas indicam relação entre esse tipo de conteúdo e maior propensão a comportamentos hostis, ansiedade, depressão, pesadelos e dessensibilização à violência.

Diante do cenário, o NCPI defende a adoção de políticas públicas intersetoriais que integrem saúde, educação, assistência social e proteção de direitos. Entre as recomendações estão campanhas de conscientização sobre o uso responsável das tecnologias, formação de profissionais, fiscalização da classificação indicativa e combate à publicidade abusiva voltada ao público infantil.

O estudo também destaca a necessidade de fortalecer redes de apoio às famílias, ampliar espaços públicos destinados ao brincar e promover a educação digital desde os primeiros anos, garantindo um equilíbrio entre tecnologia, convivência e experiências essenciais ao desenvolvimento.

As pesquisadoras reforçam o papel central de pais e cuidadores na mediação do uso de telas, recomendando limites adequados à idade, acompanhamento do conteúdo consumido, estímulo ao brincar e à interação presencial, além do exemplo de uso consciente da tecnologia no ambiente familiar. (Com informações Agência Brasil)

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