Ronan Matos
Há uma prática muito bem estabelecida na vida pública brasileira que consiste em apagar da memória coletiva tudo aquilo que incomoda o arranjo de poder vigente. Não se faz isso com barulho, não se queimam livros nem se proíbem discursos em praça pública. Faz-se de um jeito bem mais eficiente e bem mais covarde: simplesmente se deixa de falar. O silêncio, nesse país, é a forma mais sofisticada de censura que existe. E foi exatamente isso que aconteceu com Enéas Ferreira Carneiro.
Nascido em Rio Branco, no Acre, em 1938, filho de barbeiro, criado na pobreza mais crua depois de perder o pai aos nove anos de idade, Enéas construiu uma das trajetórias intelectuais mais impressionantes que esse país já produziu. Médico cardiologista, matemático, físico, professor, autor de obra de referência internacional em medicina. Num Brasil que sempre tratou o mérito como suspeito e a mediocridade como virtude, esse homem foi uma anomalia incômoda.
O problema de Enéas, aos olhos da classe política brasileira, não era a sua inteligência. A inteligência, desde que domesticada e bem comportada dentro dos limites do sistema, é até tolerada por aqui. O problema era que ele não estava nem um pouco interessado em ser domesticado. Ele dizia o que pensava, defendia o que acreditava, e fazia isso com uma clareza e uma firmeza que a maioria dos políticos profissionais jamais teve coragem de demonstrar nem nos momentos mais favoráveis.
Em 1989, com apenas quinze segundos de propaganda eleitoral gratuita na televisão, Enéas Carneiro apresentou sua candidatura à presidência da República do Brasil. Quinze segundos. Não era uma campanha. Era quase uma piada, do ponto de vista dos estrategistas eleitorais e dos donos de partido. O resultado foi trezentos e sessenta mil votos. Para quem não tinha tempo, não tinha estrutura partidária e não tinha o beneplácito de nenhuma das grandes máquinas políticas do país, isso era um sinal claro de que havia algo ali que o sistema não conseguia explicar.
Em 1994, com um minuto e dezessete segundos, obteve quatro milhões e seiscentos mil votos. Tornou-se o terceiro candidato mais votado à presidência naquele pleito. O Brasil inteiro conhecia o rosto, a voz e o bordão. Mas o sistema fez o que sempre faz com aquilo que não consegue controlar: ignorou, ironizou e seguiu em frente como se nada tivesse acontecido.
Em 2002, Enéas foi eleito deputado federal por São Paulo com um milhão, quinhentos e setenta e três mil votos. A maior votação da história do Brasil para uma cadeira na Câmara dos Deputados. Um recorde que ficou de pé por mais de quinze anos. Se isso tivesse sido feito por um político do sistema, teria virado monumento, teria virado data comemorativa, teria virado nome de estádio no dia seguinte. Como foi Enéas, ficou como uma curiosidade estatística que os comentaristas políticos mencionavam com um sorriso de canto de boca.
A questão não é difícil de entender para quem não tem medo de enxergar a realidade. Enéas era um homem que não servia ao sistema. Não cabia em nenhuma das gavetas que a imprensa e a classe política brasileira montaram ao longo de décadas para organizar o pensamento e, principalmente, para controlá-lo. Um homem que não cabe em gaveta é um homem perigoso para quem vive de fechar gavetas.
Faleceu em 6 de maio de 2007, vitimado por leucemia, aos sessenta e oito anos. Morreu como viveu: fora do esquema, sem ter sido absorvido, sem ter capitulado. E o Brasil, com a sua habitual elegância no trato com os próprios filhos mais notáveis, tratou de seguir o esquecimento com a mesma dedicação com que o havia praticado durante toda a vida do homem.
É nesse contexto que a iniciativa do deputado estadual Arlenison Cunha, do PL, na Assembleia Legislativa do Acre, precisa ser compreendida em toda a sua dimensão. Arlenison apresentou projeto de lei para batizar a nova faculdade estadual com o nome de Enéas Ferreira Carneiro. Isso não é um gesto burocrático. Isso é um ato político no sentido mais profundo e mais digno da palavra. É dizer, em voz alta e com todas as letras, que esse homem existiu, que esse homem importou e que esse homem merece ser lembrado.
A escolha do patrono é também particularmente feliz do ponto de vista simbólico. Uma instituição de ensino superior tecnológica, voltada para jovens que precisam encontrar no estudo o caminho para superar as barreiras que a vida lhes impôs, recebendo o nome de um homem que saiu da pobreza absoluta, perdeu o pai cedo, trabalhou desde criança e mesmo assim se tornou médico, matemático, físico e professor de altíssimo nível. Não existe espelho mais adequado para oferecer a uma geração jovem do que esse.
O que Arlenison fez acertou em um ponto que a política brasileira raramente acerta: a coerência entre o símbolo e a realidade. Enéas Carneiro não é um nome decorativo. É uma história de vida que ensina algo concreto sobre o que é possível fazer quando se tem disciplina, inteligência e, acima de tudo, caráter.
O esquecimento de Enéas não foi acidental. Foi um cálculo. Um cálculo feito por aqueles que perceberam que um homem com aquela trajetória, aquelas ideias e aquela independência intelectual representava um modelo inconveniente. Muito melhor manter o panteão cívico brasileiro ocupado com figuras domesticadas, figuras que não questionam os fundamentos do arranjo de poder, figuras que podem ser celebradas sem nenhum risco de que os jovens comecem a fazer perguntas inconvenientes. Enéas fazia perguntas inconvenientes o tempo todo. Por isso foi silenciado. Por isso precisa ser resgatado.
E há muitos outros como ele. O Brasil tem uma capacidade extraordinária de produzir homens e mulheres notáveis e uma capacidade igualmente extraordinária de varrê-los para debaixo do tapete quando se tornam incômodos demais para o consenso estabelecido. Cada um desses nomes esquecidos é uma dívida que a nação tem consigo mesma. Cada projeto de lei como o de Arlenison é um pequeno pagamento dessa dívida enorme.
Que o nome de Enéas Ferreira Carneiro passe a ornamentar a entrada de uma instituição de ensino no solo onde ele nasceu é uma justiça tardia, mas é uma justiça. E nesse país onde a injustiça é tão abundante e tão bem distribuída, qualquer justiça, por menor que seja, merece ser saudada sem reservas.
Ronan Matos é escritor, jornalista, membro da Academia Juvenil Acreana de Letras e editor-chefe do Diário do Acre.
