Rio Branco, Acre - sexta-feira, 06 março, 2026

“Trabalhei 18 anos nessa estrada e hoje é só decepção”, diz ex-servidor sobre abandono da BR-364

Foto: Marcela jansen

Aos 68 anos e ainda sem aposentadoria, ex-servidor do Deracre desabafa sobre abandono da BR-364 e compara Gladson Cameli ao tio Orleir: “Um ajudava realmente o povo, o outro é bem ausente”

A voz embargada e os olhos cansados de Antônio Lima de Melo, mais conhecido como Seu Pará carregam o peso de quem dedicou quase duas décadas ao serviço público e, mesmo assim, se sente esquecido. Aos 68 anos, o ex-servidor do Departamento de Estradas de Rodagem do Acre (Deracre) conta ter passado mais de 700 dias longe de casa, trabalhando na BR-364 entre Feijó e Sena Madureira. Hoje, vê a rodovia em situação crítica e aponta o atual governador Gladson Cameli como responsável direto pelo abandono.

“Trabalhei 18 anos nessa estrada. Quando a gente pegou era só mata e barro. Passava dia e noite mandando massa e pira, naquela época de Jorge Viana, do Binho Marques Marques, do Tião Viana. Era um sofrimento, mas a gente fazia com gosto porque acreditava no Acre”, afirma.

Morador de Cruzeiro do Sul, Seu Pará critica abertamente a falta de compromisso da atual gestão com a infraestrutura e os produtores rurais. Ele compara Gladson Cameli ao tio, o ex-governador Orleir Cameli, com quem também trabalhou. “O tio era presente. Ele chegava junto, ajudava o produtor, até vaca dava para quem quisesse criar. Já esse que tá aí, não aparece, não faz nada. O que tá faltando? Tudo.”

A crítica de Seu Pará vai além da rodovia. Ele denuncia a precariedade na saúde, na educação e nos ramais do interior. “Vi estudante tendo aula em curral de gado no Bujari. Nos hospitais, não tem remédio, não tem atendimento. Os produtores não conseguem tirar o que produzem porque os ramais estão abandonados. O governo recebeu milhões do governo federal para lidar com as alagações e não botaram um carrinho de mão na estrada”, desabafa.

A BR-364, principal ligação entre as cidades do interior do Acre e a capital, é alvo constante de queixas. Os relatos de abandono se acumulam. “O governo tem 16 municípios nas mãos, 24 deputados, senadores, prefeitos. Tudo do lado dele. E mesmo assim não faz. Vai reclamar de quem?”, questiona.

Além das críticas políticas, o ex-servidor expõe a dura realidade de quem serviu o estado e hoje vive sem acesso à aposentadoria. “Estou com 68 anos e até hoje não consegui me aposentar. Trabalhei em ponte, ramal, estrada, matando cobra e enfrentando perigo. Quando caiu meu precatório, o advogado quis me dar só 150 mil. Disse que Bolsonaro estava levando 125 mil do meu dinheiro. Depois mandou cancelar tudo. E o dinheiro nunca chegou.”

Mesmo diante das injustiças, Seu Pará não perde a firmeza no olhar. “Eu só queria um pouco de respeito. Trabalhei a vida inteira e hoje não tenho nada. A estrada que a gente abriu com tanto suor tá largada. A gente sente vergonha.”

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