Tarifaço dos EUA contra o Brasil pode atingir em cheio setores estratégicos do Acre

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Exportações acreanas de carne, madeira e castanha correm risco com nova política comercial americana

A decisão do governo dos Estados Unidos de revisar e impor tarifas mais altas sobre produtos importados do Brasil pode causar impactos significativos em diversas regiões do país — e o Acre, ainda que com menor volume de exportações que outros estados, não ficará imune aos efeitos da medida.

Nas últimas semanas, a administração norte-americana anunciou a intenção de aplicar tarifas de até 30% sobre uma série de produtos agrícolas e florestais brasileiros, como resposta a práticas comerciais que os EUA consideram desleais ou prejudiciais à sua indústria interna. Embora o foco esteja nas grandes commodities, a mudança pressiona os mercados e afeta toda a cadeia de exportação brasileira, com reflexos até mesmo na ponta da produção regional.

Segundo dados do Ministério de Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, em 2024, a movimentação de produtos exportados no Acre foi de R$ 527,4 milhões, uma variação positiva de 90,6% com relação ao período de janeiro a dezembro de 2023. , com destaque para carne bovina e suína, madeira processada e castanha-do-brasil, itens que correm o risco entrar na lista de sobretaxação ou sofrer impactos indiretos por conta da desaceleração do comércio bilateral.

Exportações sensíveis

Embora a maior parte da carne bovina produzida no Acre vá para o mercado interno, há uma crescente atuação de empresas locais no comércio exterior, especialmente através do frigorífico que opera com certificação para exportações. A União Europeia e os Estados Unidos são mercados estratégicos, e a imposição de tarifas pode limitar a competitividade dos produtos acreanos frente a concorrentes da América Latina e da Ásia.

De acordo com o economista e professor da Universidade Federal do Acre, Dr. Rubicleis Gomes da Silva, em conversa com a equipe do site Correio OnLine, a dinâmica adotada pelos EUA expõe um cenário global onde decisões protecionistas, como as de Trump, geram ondas capazes de atingir até regiões periféricas, transformando escolhas domésticas em riscos sistêmicos.

“O Acre, estado brasileiro cuja estrutura exportadora — ainda que pouco exposta diretamente ao mercado americano (2,15% do total em 2025) — ilustra como a hiperespecialização produtiva pode se tornar uma armadilha. Com 78% de suas exportações para os EUA concentradas em um único produto, a castanha-do-pará, o estado vivem um paradoxo: mesmo com baixa dependência geográfica, sua vulnerabilidade econômica é amplificada por flutuações em mercados distantes”, disse Silva.

A castanha-do-brasil, tradicional produto extrativista da região, também enfrenta risco. Em 2023, o Acre foi responsável por aproximadamente 25% da produção nacional da castanha exportada, com boa parte enviada a países da Europa e da América do Norte. O produto é reconhecido por sua qualidade e sustentabilidade, mas pode se tornar menos atraente comercialmente se houver aumento de tributos ou restrições sanitárias por parte dos EUA.

“O Acre ilustra como a estrutura exportadora define a exposição a choques comerciais. Em 2025, apenas 2,15% das exportações do estado foram para os EUA (US$ 552,7 mil), enquanto o Peru absorveu 35,64% (Tabela 1). O perfil produtivo é ainda mais revelador: 78,33% das vendas ao mercado americano são de castanha-do-pará sem casca (Tabela 2), produto com pouca diversificação”, destacou.

Para o especialista, o risco imediato no Estado é limitado. “Os EUA são mercados marginal. Porém, a hiperconcentração em castanha-do-pará (dependente de poucos compradores) revela fragilidade sistêmica. Se o ‘tarifaço’ desviar demanda global ou afetar parceiros indiretos (como o Peru, que compra 35% das exportações acreanas), o estado sofreria efeitos em cadeia. A castanha, por exemplo, poderia enfrentar excesso de oferta global, pressionando preços’, falou.

Já o setor madeireiro, embora enfrente desafios ambientais e regulatórios, ainda responde por cerca de 18% das exportações do Acre. A aplicação de tarifas a produtos industrializados de madeira ou o aumento da fiscalização ambiental internacional pode representar uma barreira adicional às operações legais e certificadas do setor no estado.

Reflexos no emprego e arrecadação

Para um estado com economia frágil e dependente do setor público, qualquer oscilação negativa no comércio internacional pode ter efeitos em cascata. Segundo o IBGE, mais de 55% da população economicamente ativa do Acre está no setor de serviços públicos, e apenas 1,8% da população está diretamente vinculada à indústria — o que significa que pequenas empresas exportadoras, cooperativas e agroindústrias locais são ainda mais vulneráveis a choques externos.

A queda no volume exportado ou na lucratividade dos produtos pode levar à redução de postos de trabalho em cadeias produtivas como a da castanha e da carne, além de impactar a arrecadação estadual de impostos indiretos. Para municípios como Xapuri e Brasiléia, onde há presença de extrativistas e pequenos produtores integrados ao mercado, o prejuízo pode significar menos renda e maior vulnerabilidade social.

Caminhos possíveis

Enquanto o cenário internacional se redefine, especialistas apontam a importância de investir em políticas de agregação de valor, como a transformação da castanha em óleo, farinha e outros derivados, e o aproveitamento integral da madeira de manejo sustentável com certificação internacional. Outra aposta está na bioeconomia e no fortalecimento das cooperativas regionais, que têm potencial para ocupar nichos de mercado mais resistentes à política tarifária.

Contudo, sem planejamento estadual consistente e apoio federal à pauta exportadora acreana, o tarifaço pode representar mais um baque em uma economia que já enfrenta dificuldades crônicas de infraestrutura, logística e acesso a crédito.

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