Rio Branco, Acre - terça-feira, 24 março, 2026

“Ser mulher no campo é mais difícil”: a força invisível das produtoras rurais no Acre

Foto: Correio online 

Foto: Correio online 

“Ser mulher já é, por si só, um exercício constante de resistência. No campo, essa resistência ganha outras camadas — mais duras, mais silenciosas e, muitas vezes, invisíveis”. A frase é de Marinês da Silva e Chaves, produtora rural e presidente de uma associação comunitária em uma região isolada a mais de 160 quilômetros da Transacreana, no interior de Sena Madureira. Mas poderia ser de tantas outras mulheres que vivem a mesma realidade no Acre profundo.

De acordo com a Marines, a rotina começa antes do amanhecer. Entre cuidar da casa, preparar comida, acompanhar os filhos e trabalhar na roça, não há pausa — nem escolha. São jornadas que se acumulam. Trabalho doméstico, produção rural, cuidado com a família e, em muitos casos, liderança comunitária. Tudo isso sem acesso ao básico. “Lá a gente não tem um posto de saúde, não tem atendimento. Quando adoece, fica à mercê.”

A ausência de políticas públicas impacta diretamente a vida das mulheres. São elas que enfrentam, de forma mais intensa, a falta de assistência médica, a precariedade da educação e o isolamento.

Mães que não conseguem atendimento para os filhos. Mulheres que convivem com dor sem acesso a tratamento. Jovens que precisam deixar suas casas para estudar — quando conseguem. “Tem menina lá que não consegue nem tratar um dente porque não tem como sair.”

A dificuldade de acesso transforma necessidades simples em obstáculos quase intransponíveis. E, ainda assim, elas seguem. Criam filhos, mantêm a produção, sustentam famílias e organizam comunidades inteiras. Muitas vezes sem reconhecimento, sem apoio e sem voz. “Só lembram da gente no dia da mulher.”

A crítica é direta. Datas comemorativas chegam acompanhadas de homenagens, discursos e promessas. Mas, no restante do ano, a realidade permanece a mesma. “Fazem café, fazem evento… mas não vão lá ver como a gente vive.”

A fala revela um abismo entre o discurso institucional e a vida real das mulheres da zona rural. Enquanto políticas públicas são discutidas nos centros urbanos, há mulheres que ainda vivem sem acesso à educação básica. Marines, por exemplo, só conseguiu estudar até a sexta série — não por escolha, mas por falta de escola. “Na minha época não tinha. E muita gente ainda não tem acesso como deveria.”

Mesmo assim, ela fez diferente com os filhos. Dos 13, alguns conseguiram se formar. Saíram da comunidade, enfrentaram dificuldades, mas buscaram outro caminho. Outros permaneceram no campo — por escolha ou por falta de alternativa. “Eles saíram porque não aguentavam mais tanta dificuldade.”

A frase carrega uma realidade comum: o afastamento dos jovens do campo, impulsionado pela ausência de condições mínimas de permanência. E quem fica, permanece sustentando tudo.

No caso de Marines, além de mãe e produtora, ela também é liderança. Como presidente da associação local, articula demandas, acompanha moradores em órgãos públicos e busca melhorias para a comunidade. Um papel que exige coragem — e resistência. “Eu quero levar conhecimento pras mulheres. Tem muita que nem sabe os direitos que tem.”

O desconhecimento, provocado pelo isolamento, ainda é uma barreira. Há mulheres que nunca saíram da comunidade, que não sabem como acessar serviços básicos e que vivem sob medo constante de instituições que deveriam protegê-las. “Tem gente que chega na cidade e não sabe nem andar. Tem medo.”

Apesar de tudo, o discurso não é de desistência. É de luta. Marines fala em organização, em fortalecer as mulheres da comunidade, em abrir caminhos para que outras não precisem enfrentar as mesmas dificuldades. “Eu só queria que olhassem mais pra mulher da zona rural.”

O pedido é simples — e urgente: reconhecimento, presença e política pública real.

Porque, enquanto o país debate desenvolvimento, há mulheres sustentando comunidades inteiras em silêncio, no meio da floresta, sem estrutura e sem visibilidade. Mulheres que produzem, cuidam, lideram e resistem. E que seguem, todos os dias, fazendo muito — com quase nada.

Compartilhar