Foto: Portal Correio Online
Sem água, sem apoio: produtores do Acre vivem à base de gambiarras para sobreviver
Começa hoje no Correio Online a série especial “Agricultura à Deriva”, que ao longo de sete episódios vai revelar, dia após dia, a dura e silenciosa realidade da agricultura familiar no Acre. Neste primeiro capítulo, mostramos como a falta de água, de infraestrutura e de assistência técnica tem empurrado produtores ao limite da desistência.

No quilômetro 26 da Transacreana, Anderson Negreiros recebeu a equipe do Correio Online e conversou com exclusividade sobre as dificuldades enfrentadas no dia a dia da produção. Cansado de esperar por apoio público que nunca chega, ele decidiu bancar por conta própria uma solução precária para garantir água à sua horta e às dos vizinhos: comprou bomba, fios e 500 metros de mangueira para puxar água de um açude próximo. O improviso mantém vivas as hortas de oito famílias, mas representa a imagem mais clara do abandono sentido no campo.

“Eu pedi para o dono do açude me deixar puxar a água, comprei bomba, fio, mangueira e trouxe até aqui. Além da minha horta, atendo também a de um vizinho. É um esforço muito grande, mas sem isso a gente já teria perdido tudo. Só que não era pra ser assim. A prefeitura tinha que dar apoio, porque sozinhos não conseguimos mais”, desabafa Anderson.

A mesma queixa se repete na fala de Marlon, agricultor que também vive da produção de hortaliças na Transacreana e que conversou com exclusividade com a nossa equipe. “A nossa principal dificuldade aqui é a falta de água. A gente não tem nenhum tipo de assistência nesse quesito. Muitas vezes a gente carrega a produção na cabeça, enfrentando a lama, porque não existe apoio para escoar o que produzimos. É muito difícil”, relata.

O sentimento de abandono é reforçado pelo presidente do Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras da Agricultura Familiar (Simpasa), Josimar Ferreira, que também conversou com o Correio Online durante a visita à propriedade. Ele aponta que a situação não é isolada. “Enquanto o governo federal lança programas como o Plano Safra, colocando recursos para a agricultura familiar, aqui no município esses recursos não se transformam em apoio real. O produtor continua sozinho, tendo que investir com o que não tem. O mínimo, como água e estrada, não chega”, critica.

Josimar lembra que a dificuldade em garantir água para irrigação se soma a um problema ainda mais grave: a falta de acesso à água potável. “As famílias aqui não têm nem água de qualidade para beber. É um absurdo. A defesa civil precisa olhar para esse ramal, a prefeitura precisa agir. Não é possível que a gente continue vendo trabalhadores improvisando para sobreviver, enquanto políticas públicas ficam só no discurso”, reforça.


O drama de Anderson, de Marlon e de dezenas de famílias no ramal da Transacreana mostra como o agricultor familiar, responsável por boa parte da alimentação que chega às mesas urbanas, tem sido empurrado para o limite da desistência. A gambiarra que hoje irriga couves, alfaces e cheiro-verde é o retrato da ausência de políticas públicas capazes de garantir condições mínimas para quem insiste em produzir no Acre.

No próximo capítulo da série “Agricultura à Deriva”, o Correio Online mostra como, além da falta de água e de assistência, os agricultores familiares enfrentam um segundo drama: produzir sem ter para quem vender. Contratos atrasados, atravessadores que pagam abaixo do custo e hortaliças que acabam no lixo revelam a face mais cruel de uma produção que não encontra mercado.

