Seis mil mudas e um sonho: conheça Gabi, a força feminina no coração do café acreano

Foto: Portal Correio online

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Finalista do Qualicafé 2025, a jovem de 25 anos da Vila Belo Jardim transformou dois hectares e seis mil mudas em símbolo de fé, coragem e esperança no café acreano.

A estrada até a Vila Belo Jardim, em Rio Branco, é feita de poeira, curvas e silêncio. Cada quilômetro percorrido parecia nos aproximar não apenas de uma propriedade rural, mas de uma história que já vinha ganhando destaque no Acre. Depois de vencer o caminho de chão batido, chegamos ao destino: a casa simples onde vive Gabriela de Freitas Tavares. Aos 25 anos, Gabi, como é carinhosamente chamada pelos pais, carrega nos olhos e no jeito de falar a maturidade de quem aprendeu a lidar com a terra.

A recepção foi calorosa — um sorriso largo, desses que iluminam o ambiente, e a empolgação de quem quer mostrar com orgulho os dois hectares de café, onde seis mil mudas crescem junto com os sonhos de uma família.

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Não ficamos muito tempo na varanda. Logo Gabriela nos convidou a conhecer de perto o cafezal. O caminho até lá exigiu mais um trecho de carro e, depois, alguns minutos a pé, em meio ao silêncio quebrado apenas pelo canto dos pássaros. Cada passo aumentava a expectativa, até que o verde das fileiras de café surgiu diante dos olhos como uma revelação.

A jovem nos guia pelo terreno como quem apresenta um tesouro. Cada fileira de café é apontada com orgulho, como se cada muda fosse um capítulo de uma história recente, mas intensa. Foram apenas dois anos desde o primeiro plantio, tempo suficiente para transformar a vida de toda a família.

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“O começo foi muito difícil. A experiência mais dolorosa foi ver nossas plantas morrendo sem irrigação e não ter condições financeiras para resolver. Tive que buscar empréstimo, e mesmo assim não conseguimos comprar tudo o que era necessário. Mas a gente nunca desistiu. Colocamos fé, garra e determinação. E deu certo”, relembra Gabriela, a voz embargada entre a memória da luta e a certeza da vitória.

Filha de Manoel Francisco Tavares e Vanda Pereira de Freitas, Gabi cresceu na cidade, mas viu os pais tomarem a decisão corajosa de vender a casa e apostar tudo no campo. Foi o recomeço de uma família que acreditou no potencial do café robusta amazônico, mesmo quando muitos diziam que a cultura não daria certo no Acre. “Muitos falavam que o café não ia pra frente. Mas nós acreditamos, e hoje estamos aqui, entre os finalistas do Qualicafé”, reforça.

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Ser finalista do Qualicafé, para Gabriela, é mais do que estar entre os melhores cafés do estado. É também carregar a representatividade da mulher no campo. “Quero mostrar que nós, mulheres, também temos espaço na roça. Que podemos liderar, produzir, empreender e realizar nossos sonhos”, enfatiza.

Inspirada pela fé e pelo exemplo dos pais, ela deixa um recado para quem sonha seguir o mesmo caminho: “Primeiro é preciso acreditar, ter fé. Depois, colocar garra e trabalhar muito. Os desafios existem, mas a recompensa vem. Vale a pena.”

O reconhecimento do Qualicafé

O orgulho é justificado. O Qualicafé 2025, concurso estadual que reconhece os melhores cafés robustas da Amazônia, recebeu quase 50 amostras de produtores de oito municípios acreanos. Apenas 15 chegaram à fase final, entre eles Gabriela, com os dois hectares e seis mil pés que cultiva com os pais.

“Eu não esperava passar. Quando ouvi meu nome entre os 15 melhores, foi uma alegria imensa. É um reconhecimento que nos motiva a continuar e acreditar ainda mais nesse sonho”, conta, o sorriso largo iluminando o rosto jovem.

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Planos que brotam junto ao café

Mas Gabriela não para no presente. Os planos já estão traçados: ampliar a produção ano após ano. “Já temos planos para novembro: vamos plantar mais duas hectares. E todo ano quero manter essa meta, até termos uma produção grande o bastante para viver só do café”, projeta.

O sonho também vai além das fronteiras do Acre. “Às vezes a gente sente que não é tão reconhecido aqui. Mas quando o café passa a ser visto e valorizado, é uma alegria enorme. Quem sabe um dia possamos até colocar nossa marca no mundo”, completa.

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Enquanto caminhamos de volta pela propriedade, a sensação é clara: Gabriela não cultiva apenas café. Cada muda plantada é um pedaço de futuro, cada fileira verde é uma linha de esperança. Aos 25 anos, ela representa uma nova geração de produtores que acreditam na força da terra e no poder transformador da família.

Na simplicidade da casa e na imensidão do campo, Gabriela planta mais que grãos — planta sonhos. E colhe inspiração para todo o Acre.

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