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Produzir na floresta nunca foi o maior desafio para quem vive do extrativismo no Acre. O obstáculo histórico sempre esteve no caminho entre a produção e o acesso a políticas públicas. Em áreas onde o deslocamento depende de rios e longas distâncias, a presença do Estado costuma ser limitada — e é nesse cenário que a Secretaria de Estado de Agricultura (Seagri) passa a executar uma nova modalidade do Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) voltada aos extrativistas.
A iniciativa deve beneficiar cerca de 280 produtores distribuídos em reservas extrativistas como Chico Mendes, Cazumbá-Iracema, Alto Rio Tarauacá, Riozinho da Liberdade e Alto Juruá. A execução é coordenada pela Seagri, com recursos do Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, em parceria com a Secretaria de Educação e o ICMBio, além do apoio da Secretaria de Assistência Social. Diferente do modelo tradicional do PAA, historicamente mais acessado por agricultores familiares organizados, a nova modalidade direciona o programa de forma específica a extrativistas que vivem em áreas de difícil acesso.
A proposta ainda está em fase de busca ativa e cadastramento dos produtores e das unidades recebedoras, com atenção especial às comunidades isoladas, onde o transporte é predominantemente fluvial. Nessas regiões, escolas devem funcionar como pontos de recebimento, conectando a produção das reservas ao consumo local e encurtando um percurso que, por anos, dificultou a inserção desses trabalhadores em políticas públicas.
Além de ampliar quem participa do programa, a iniciativa também muda o perfil da produção inserida. Produtos da sociobiodiversidade, como açaí e buriti, passam a integrar as aquisições, ao lado de proteínas de origem animal, aproximando a produção da floresta de uma rede mais estruturada de abastecimento.
Para o chefe da Divisão de Apoio à Produção Familiar da Seagri, Igor Honorato, o desafio está justamente em fazer a política chegar onde ela historicamente não alcançava. “É um programa desafiador, principalmente por chegar a comunidades de difícil acesso, mas que representa um avanço importante para alcançar esse público”, afirmou.
Ao estruturar essa nova modalidade dentro das reservas extrativistas, o Estado amplia o alcance de uma política pública já consolidada e passa a integrar, de forma mais direta, a produção da floresta ao sistema de compras institucionais. Em um território marcado por distâncias e isolamento, a iniciativa representa mais do que a compra de alimentos — sinaliza a presença do poder público onde, por muito tempo, ele chegou de forma limitada.
