Rio Branco, Acre - quinta-feira, 24 setembro, 2026

SE EU OLHAR PRO MEU RETRATO NA PAREDE, QUE ROSTO EU VOU VER?

(…) “Dorian continua jovem e aparentemente perfeito, porém, o retrato começa a mudar: a imagem representada na tela envelhece e passa a evidenciar marcas que refletem a corrupção moral e os atos cometidos pelo personagem…” (O Retrato de Dorian Gray – Oscar Wilde).

Transferir a consequência de seus atos para um retrato trancafiado num canto qualquer, enquanto a liberdade para uma vida devassa passeia lá fora, onde o tempo passa, mas não deixa marcas. Isso seria bom, né? É o romance de Oscar Wilde. Dorian, era um jovem de beleza estonteante, que teve a brilhante ideia que relatei duas linhas acima. Superior também era o andar da casa do personagem, onde seu retrato escondia o que a vida fora do quadro não mostrava. A princípio, a obra ficava à mostra, mas ao passo que a vida passava tortuosa e a tela absorvia, com rabiscos, imperfeições e rasuras, lá dentro; o retrato foi a esconderijo, saiu do palco e foi às costas das cortinas. Era meio da tarde, e a chuva temporã do veraneio passara há pouco aqui pelos cantos do meu esconderijo urbano-rural. Tudo parecia em ordem, tranquilo… jurava que não havia nenhum quadro pendurado na minha parede. Até que, o conflito deu o primeiro traço sobre a tela da minha tarde pacata. O segundo já foi um borrão e, quando me dei conta, a parede limpa, cuidada e azulejada já ganhara um novo objeto de ornamentação: o meu retrato! Ajeitei a pendura com esmero, deixando bem centralizado em relação à parede principal do quarto. Feito isso, me igualara à astúcia do personagem Dorian Gray. A diferença é que, não fui levar uma vida devassa na brevidade daquela tarde, outrora pacata com cheiro de terra molhada, não! Eu desci o morrinho após a cerca e fui pescar! Jurava eu que, com meu quadro pendurado, linhas reforçadas, boias coloridas, chumbadas, anzóis, iscas e a sombra da mangueira carregada iriam afastar as consequências do conflito que eu deixara no quarto. Era o tempo necessário para que as coisas se resolvessem enquanto eu arremessava linha n’água. A chuva volta a cair e, parece que traz com os pingos ralos uma mensagem lida com a rapidez de quem puxa a fisgada de um tubarão. Foi a gota d’água pra eu perceber que, não dava pra sair no meio do conflito, pendurar um quadro na parede reta e fugir pra calmaria de uma pescaria torta. A vida, diferentemente do romance, não acontecia lá fora, comigo, sob chuva, anzol e linha; não! As consequências da minha fuga me esperavam, lá dentro, enquanto meu retrato era rasurado pela minha covardia, borrão por cima de borrão, delineando cada traço roto sobre meu quadro cuidadosamente pendurado por mim. Deixei os peixes e caminhei até o centro do conflito. Me rendi aos fatos. Assumi os erros. Engoli o orgulho e, só então, tive coragem de olhar pro meu retrato preso à parede: Tava marcado! Parece que cada minuto aproveitado à beira da água foi devidamente cobrado com tinta grossa sobre a tela do meu rosto, cada arremesso lançado fora registrado com um devido arranhão… era o fim da minha tarde de Dorian Gray. Mas o começo da lição: Nossos problemas, conflitos e dilemas não são transferíveis. Não dá pra simplesmente alinharmos nosso retrato perfeito sobre o ângulo certo da parede e corrermos para uma vida frouxa, lá fora, de falsa felicidade, iscas e anzóis, enquanto há vida de verdade por ser resolvida, lá dentro, entre as paredes da nossa casa. Quanto mais postergamos o enfrentamento dos nossos desafios, mais irreconhecível vai ficando nossa face, a gente, nosso retrato, nossa imagem na parede… até que, chega um ponto, em que já não nos orgulhamos de quem somos, de quem nos tornamos, do que enxergamos na pintura da tela da nossa vida real. É quando começamos a pensar em nos esconder, recolhermos nosso retrato do quarto e trancafiá-lo num cantinho qualquer rodeado de quinquilharia, bem atrás das cortinas, longe dos holofotes e das vistas do mundo, tudo isso, movido pelos sentimentos de medo e vergonha do que outros verão quando levantarem o pescoço do julgamento e olharem pra nossa face exposta, rabiscada pelos traços do tempo e de nossas ações… Mas e eu? Se inclinar o pescoço e olhar pro meu retrato na parede, hoje, que tipo de rosto eu vou ver?

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