Foto: Iternet
A nova estimativa da Agroconsult apontando para uma safra recorde de 178,1 milhões de toneladas de soja em 2025/26 confirma um movimento que vem se consolidando no país: o avanço contínuo da produção mesmo diante de um clima irregular e de pressões crescentes sobre o setor. O cenário nacional, porém, ganha contornos particulares quando observado a partir da Amazônia Ocidental, especialmente do Acre, onde a expansão agrícola tem mudado o perfil econômico do estado.
O estudo apresentado pelo sócio-diretor da Agroconsult, André Pessôa, durante o jantar da Associação Nacional dos Exportadores de Cereais, mostra que o Brasil deve ampliar em 2,1% a área plantada, chegando a 48,8 milhões de hectares, impulsionado principalmente pela conversão de pastagens. No Acre, esse processo vem ocorrendo em escala menor, mas com impacto crescente, sobretudo nos municípios do Vale do Acre e do Alto Acre, que têm intensificado investimentos em tecnologia, regularização de áreas e abertura de novas frentes produtivas.
Nos últimos ciclos, o estado saiu de uma presença quase simbólica no mapa da soja para uma participação crescente, com destaque para Acrelândia, Plácido de Castro e Sena Madureira, regiões onde produtores locais e grupos empresariais passaram a apostar em soja, milho e integração lavoura-pecuária. Técnicos da área afirmam que o potencial produtivo acreano ainda é subestimado, principalmente porque a combinação de solo corrigido, tecnologia adequada e logística em evolução tem permitido saltos expressivos de produtividade.
O avanço do plantio no país, que já chega a cerca de 85% da área estimada para a safra 2025/26, também se reflete no Acre, onde a janela agrícola foi beneficiada por chuvas mais regulares após um período de instabilidade. Em algumas regiões do país, a consultoria mapeou até 4% de replantio devido à irregularidade climática, mas no Acre esse índice tem sido menor, segundo agrônomos que acompanham o ciclo atual. A percepção de campo é que o estado vive um ano mais favorável que 2023/24, marcado por atrasos e impactos da seca.
A perspectiva de exportação recorde nacional — 109,1 milhões de toneladas este ano e 112 milhões em 2026 — reforça a importância de estados emergentes na rota logística. Para o Acre, a consolidação da produção de grãos abre portas para novas oportunidades: desde a ampliação da agroindústria local até a integração com corredores internacionais, como o eixo Acre–Peru, que começa a ganhar projeção com o avanço das tratativas sobre infraestrutura e escoamento pelo Pacífico.
No milho, mesmo com a queda prevista de 6,2% na produção nacional (141,6 milhões de toneladas), a área plantada deve aumentar. O Acre segue essa tendência, com produtores investindo em milho como alternativa para alimentação de animais, rotação de culturas e incremento da renda. A aposta tem sido especialmente forte em sistemas integrados que unem pecuária, recuperação de pastagens e grãos — modelo que vem transformando o perfil de propriedades em municípios como Senador Guiomard e Capixaba.
O que se desenha, portanto, é um Acre cada vez mais conectado ao movimento nacional que fortalece o agronegócio como motor econômico. A safra recorde de soja do Brasil projeta números grandiosos, mas também revela o papel crescente de estados amazônicos que, com responsabilidade ambiental e eficiência produtiva, começam a ocupar espaço antes considerado improvável. Produzir mais — e com valor — tornou-se parte da nova identidade do agro acreano.
