Foto: Defesa Civil
O nível do Rio Juruá apresentou redução nas últimas horas em Cruzeiro do Sul, no interior do Acre, mas ainda permanece acima da cota de transbordo, mantendo dezenas de famílias fora de suas residências. De acordo com a medição realizada às 6h desta terça-feira (7), o manancial marcou 13,58 metros, uma queda de 26 centímetros em relação às 24 horas anteriores.
Mesmo com a diminuição do nível das águas, moradores que foram removidos para abrigos públicos ainda aguardam autorização da Defesa Civil para retornar às casas. A cheia do rio atingiu diversos bairros e comunidades do município e levou 59 famílias para abrigos organizados pela prefeitura, enquanto outras três foram acolhidas por parentes.
Segundo dados do poder público, aproximadamente 28,3 mil pessoas foram afetadas direta ou indiretamente pela enchente, o que representa cerca de 7.087 famílias. As áreas atingidas incluem 12 bairros da zona urbana, além de 15 comunidades rurais e três vilas. Diante da situação, o governo do Acre decretou estado de emergência no último domingo (5).
Apesar do recuo das águas, alguns moradores optaram por permanecer em suas casas, mesmo com o risco de novos alagamentos. É o caso do aposentado Manoel Edson, morador do bairro da Lagoa, uma das regiões mais afetadas pela cheia. Ele afirma que teme deixar a residência e perder seus pertences. “Se eu sair daqui, não encontro nem a telha”, disse.
Na mesma região, a diarista Gleiciane Silva convive há mais de cinco dias com a água dentro de casa. Para evitar maiores prejuízos, ela improvisou estruturas para elevar móveis e eletrodomésticos. A decisão de procurar ajuda só ocorreu após a visita de equipes de apoio e diante do agravamento da situação, já que o filho de seis anos ficou doente após contato com a água da enchente.
“Não tinha para onde ir e nem dinheiro para pagar transporte. Nem para comprar água eu tinha. Então fiquei aqui mesmo. Já chorei muito com tudo isso”, relatou.
Entre as famílias que estão nos abrigos montados pela prefeitura, o desejo principal é retornar à rotina. A empregada doméstica Maria Darclei Araújo afirmou que aguarda a liberação para voltar à residência. “Esperamos voltar logo para casa, porque precisamos trabalhar”, afirmou.
O Rio Juruá ultrapassou a cota de transbordo, fixada em 13 metros, no último dia 30 e permanece acima desse nível desde então. Na última sexta-feira (3), o rio chegou a marcar 14,10 metros, quando cerca de 19,6 mil pessoas já estavam sendo afetadas pela enchente. Somente neste ano, esta é a quarta vez que o manancial transborda na região.
As primeiras remoções de moradores começaram na tarde de 31 de março. Nos abrigos, as famílias recebem alimentação, assistência social e apoio logístico. Em algumas áreas atingidas, serviços públicos também foram interrompidos. Segundo a Defesa Civil municipal, 186 famílias tiveram o fornecimento de energia elétrica suspenso por segurança, e o abastecimento de água também foi interrompido em locais alagados.
O diretor de desastres da Defesa Civil de Cruzeiro do Sul, Iranilson Neri, explicou que os impactos vão além das residências atingidas. “Quando ocorre a cheia, postos de saúde deixam de funcionar, escolas suspendem atividades e muitas vias ficam completamente alagadas, dificultando o acesso das comunidades”, informou.
No último domingo, a Secretaria de Estado de Assistência Social e Direitos Humanos enviou ajuda humanitária ao município, incluindo 200 cestas básicas e 100 colchões destinados a famílias em situação de vulnerabilidade, entre elas comunidades indígenas atingidas pela enchente.
A prefeitura definiu seis escolas públicas como pontos de abrigo temporário para os moradores desalojados. Entre elas estão as escolas Rita de Cássia, no bairro Cruzeirão; Marcelino Champagnat, no João Alves; Padre Arnoud, na AC-405; Thaumaturgo Azevedo, no bairro do Alumínio; Corazita Negreiros, no Telégrafo; e a Escola Estadual Cívico-Militar Madre Adelgundes Becker, no Miritizal.
Além do Rio Juruá, a Defesa Civil monitora a elevação do nível de outros mananciais da região, como os rios Croa, Juruá Mirim e Valparaíso, que também apresentam aumento no volume de água.
Com a inundação de áreas da cidade, o Serviço de Água e Esgoto do Estado do Acre (Saneacre) realizou ações emergenciais para garantir o abastecimento de água potável às famílias afetadas. Na última sexta-feira, caminhões-pipa foram utilizados para distribuição de água em bairros atingidos, como o da Várzea.
Segundo o órgão, o fornecimento pela rede pública é interrompido em áreas alagadas para evitar risco de contaminação da água tratada. Nesses casos, o abastecimento alternativo é adotado até que as condições permitam a retomada do serviço normal.
Historicamente, o período de maior incidência de cheias em Cruzeiro do Sul ocorre entre o fim de fevereiro e o início de março, embora registros também sejam comuns ao longo do mês de abril. Nos últimos anos, a retirada preventiva de famílias costuma ocorrer quando o nível do Rio Juruá atinge entre 13,50 e 13,60 metros.
