Foto: Sergio Vale
Muito além do atendimento especializado, o Hospital do Rim tem se consolidado como uma das principais referências na discussão sobre saúde pública no Acre. A atuação da unidade ganhou ainda mais visibilidade durante uma sessão solene realizada na Assembleia Legislativa nesta segunda-feira, 4, em alusão ao Dia Mundial do Rim. Na oportunidade, um problema silencioso, progressivo e ainda pouco debatido entrou na ordem do dia: as doenças renais.
O encontro serviu como ponto de convergência entre profissionais de saúde, gestores e parlamentares, mas o destaque acabou sendo o papel desempenhado pela instituição ao longo dos últimos anos — tanto na assistência quanto na construção de estratégias para enfrentar o avanço da doença no estado.
A diretora técnica do hospital, dra. Jarinne Nasserala, reforçou que o maior desafio ainda está fora das unidades de saúde: a falta de informação. Segundo ela, a maioria dos pacientes só descobre o problema quando já não há alternativa além da diálise. “É uma doença silenciosa. Muitas pessoas não sabem nem o que é creatinina, não fazem exames de rotina e só procuram ajuda quando já precisam iniciar a hemodiálise”, alertou.
A médica também defendeu que ações como a Semana Estadual do Rim precisam ser fortalecidas como política pública contínua. “Essas ações não são apenas eventos. Elas evitam o agravamento das doenças e reduzem custos futuros ao sistema de saúde. O ideal sempre será prevenir”, destacou. “A doença renal não tem idade, não tem sexo, não tem classe social. Ela atinge todo mundo”, reforçou.

Hoje, o estado conta com cerca de 800 pacientes em diálise, com a entrada média de 10 a 15 novos casos todos os meses, cenário que evidencia a pressão crescente sobre o sistema de saúde.
Diante desse avanço contínuo da doença, o hospital tem investido em ações que vão além do consultório. Campanhas educativas, mutirões e eventos voltados à população vêm sendo utilizados como ferramenta para frear esse crescimento e ampliar o acesso à informação.
A criação da Semana Estadual do Rim no Acre, por exemplo, ampliou o alcance dessas ações e permitiu levar informação para diferentes públicos. Na última edição, mais de 1.300 pessoas participaram de atividades físicas, além de um simpósio que reuniu mais de 400 profissionais de saúde. Já o chamado “Dia D” contabilizou mais de mil atendimentos gratuitos, com exames, consultas e orientações à população.
“A gente precisa levar informação para as famílias. Ainda existe muito tabu sobre a doença e até sobre a doação de órgãos. Quanto mais informação, maior a chance de salvar vidas”, reforçou Jarinne. “A lógica é simples: quanto mais cedo o diagnóstico, menores os danos e os custos”, completou.
Outro ponto que tem ganhado força é a necessidade de descentralizar o atendimento. A concentração dos serviços na capital ainda obriga muitos pacientes a enfrentarem longos deslocamentos, o que impacta diretamente na adesão ao tratamento.

Nesse contexto, ampliar a rede de atendimento passa não apenas pela estrutura física, mas também pela formação de profissionais.
Ao mesmo tempo, o hospital também aposta na formação de novos especialistas, com programas de residência médica em nefrologia — uma área que ainda enfrenta escassez de profissionais em todo o país. “A gente já está formando nefrologistas aqui no Acre. Isso é fundamental para garantir continuidade no atendimento e ampliar a rede de cuidado”, afirmou a médica.
Apesar dos avanços na estrutura e na formação profissional, um dos principais desafios ainda está na etapa mais sensível do tratamento: o transplante.
Mesmo com a retomada dos transplantes renais no estado, a baixa adesão à doação de órgãos ainda limita o avanço dos procedimentos. Hoje, cerca de 50 pacientes aguardam por um rim no Acre, enquanto a escassez de doadores impede que novos transplantes sejam realizados. “Temos pacientes ativos na fila de espera, inclusive crianças. A doação é um ato de amor, mas ainda enfrenta barreiras como a falta de informação e o receio das famílias”, afirmou a diretora técnica.
Ela também chamou atenção para entraves logísticos enfrentados pelo estado. Segundo a médica, a dificuldade de transporte de órgãos vindos de outras regiões torna ainda mais essencial o fortalecimento da doação local.
É nesse cenário que o Hospital do Rim também se posiciona como articulador dentro da rede de saúde, aproximando diferentes atores envolvidos na área. Para o CEO do Hospital do Rim, Alessandro Nasserala, o momento marca uma virada importante na articulação entre diferentes setores envolvidos na área da nefrologia no estado.
“Em dez anos de atuação, é a primeira vez que conseguimos reunir todos os atores envolvidos — pacientes, profissionais, gestão e parlamento — em um mesmo espaço para discutir a pauta. Isso mostra que estamos avançando”, afirmou.

Ele também destacou o papel estrutural que a unidade passou a ocupar dentro da saúde acreana. “Hoje não dá mais para imaginar o Acre sem o Hospital do Rim. Nós atendemos uma parcela significativa dos pacientes em diálise e seguimos expandindo para levar esse atendimento a outras regiões”, disse.
A estrutura, que começou de forma modesta, com apenas dois consultórios e poucos pacientes, hoje acompanha centenas de pessoas em tratamento contínuo e já planeja expandir os serviços para o interior do estado, incluindo municípios como Sena Madureira.

Sobre o Hospital do Rim
A presença do Hospital do Rim no Acre começou em 2016, ainda com uma atuação concentrada no atendimento em nefrologia e nos procedimentos de diálise. Desde então, a unidade passou por um processo de expansão que ampliou significativamente sua capacidade de atendimento. Hoje, além dos tratamentos renais, o hospital oferece suporte cirúrgico, internação, exames em laboratório próprio e assistência em múltiplas especialidades médicas. A rede atende atualmente em duas frentes, com unidades instaladas em Rio Branco e no município de Brasiléia.
