“E agora, José? A festa acabou, o povo sumiu, a noite esfriou, A LUZ APAGOU (…) sem cavalo preto que fuja a galope, você marcha, José! José, pra onde? ” (Carlos Drummond de Andrade).
Para onde foi o pobre “José”, de Drummond, quando a noite esfriou, a luz apagou e o povo sumiu? Pra onde? Dia desses, um colega perguntou se eu conhecia esse poema, respondi que sabia de cor, se duvidasse. Mas, quando reli a obra com um cuidado maior, descobri que conhecia somente o texto, mas sobre o “José”, eu não sabia nada! Afinal, PRA ONDE A GENTE VAI QUANDO A LUZ APAGA? Quase certeza que foi no verão passado. Era daqueles dias de noite pesada. Seca. De cantar de cigarra e cheiro de mato queimado. Eu estava só. Adulto não liga pra isso. [né?] Até que… A LUZ APAGOU! E eu liguei! Lembro que deu no jornal no dia seguinte que foi por causa de uma sobrecarga no linhão que corta Rondônia, coisas da estiagem, fechava a matéria. Mas isso é coisa do dia seguinte. Porque na noite mesmo, eu meti foi marcha feito o “José”. Mas pra onde? Fui pro supermercado mais próximo. “Lá tem gente e o gerador não deixa a luz apagar”, eu pensei. Lembro que fiquei de corredor em corredor. Prateleira em prateleira. Da seção de frios à de limpeza e higiene… quando vi, já passara quase duas horas. Voltei. Mas só quando a LUZ VOLTOU junto. Só depois de um tempo, já com clareza, eu concluí que, nas noites escuras, naquelas de APAGÃO DA VIDA, sem notificação de aviso de corte, é que se revelam ao menos dois tipos de pessoas: as que enfrentam o ESCURO, a SOLIDÃO e o MEDO, sob a batuta da cigarra e do cheiro de terra arrasada; e, as que correm pro mercado mais próximo, onde tem GENTE, na busca imediata por LUZ e CALOR alheios em um corredor qualquer. Talvez, nem pra fugir da escuridão, mas sim, do que podem encontrar nela SOZINHOS. Juro que eu queria ter dito que, naquela noite de APAGÃO, eu fiquei em casa, compartilhei uma xícara de chocolate quente COMIGO e ouvi os grilos e as cigarras, mas NÃO! Naquela noite eu fui do tipo de gente que vai pro MERCADO, vagar, lá fora, atrás da luz que eu já deveria ter aqui dentro há muito tempo. Na próxima vez eu fico. Me sirvo um chocolate e conto uma história diferente, eu juro! Na próxima… Mas, e você, quem é VOCÊ QUANDO A LUZ APAGA?

