Rio Branco, Acre - quinta-feira, 27 agosto, 2026

QUANDO A PENA BRILHA, A GAIOLA NÃO SEGURA…

Algumas vezes fico triste que Andy tenha ido embora. Tenho que me lembrar que alguns pássaros não nasceram para gaiola. Suas penas brilham demais. E quando eles fogem, a parte em você que sabia que prendê-los é pecado, fica feliz. Ainda assim o lugar onde a gente vive fica mais vazio e sem vida sem eles.

“Não vai querer comida de verdade, ao invés de fast food? ” A minha sugestão foi incisiva porque já imaginava que a pedida inicial seria algo da máquina. O trecho é do magnífico filme Um Sonho de Liberdade – 1994, que traz a estória de Andy Durfresne, um banqueiro bem-sucedido que conseguiu fugir de uma prisão federal após cumprir 20 anos de pena injustamente pelo assassinato da esposa. Já a sugestão culinária é minha, e eu explico: desde que me lembro, a casa dos meus pais sempre recebeu os missionários da igreja que frequento, a maioria estrangeiros. Cada almoço sempre fora uma oportunidade de experiência e de troca cultural, só que, é difícil, após quase 30 anos, você ainda encontrar a boa novidade, o entusiasmo e genuinidade nesse tipo de relação, até porque a rotatividade é grande, e, depois de um tempo, você para e: “ São só rapazes, de longe, iguais, só troca o rosto, o sobrenome e a plaquetinha grudada no bolso da camiseta branca, já abarrotada pela poeira das ruas…” Esse é o risco que se corre quando nos deixamos levar pela quinta marcha dos tempos acelerados de hoje. Não consigo explicar como que, em algumas semanas, alguns almoços e breves encontros, a tristeza faria morada onde até então não havia mais endereço. Talvez, por uma ironia da vida, tenha revisitado tempos menos acelerados, quando a infância ainda era suficiente para criar laços, lamentar partidas e ficar pensativo quando se recebe uma mensagem no domingo à noite de despedida no dia seguinte. De repente, os rostos avermelhados pelo sol, as camisas amareladas pela sujeira da terra, as plaquinhas arranhadas fixadas ao bolso e as gravatas encardidas foram ganhando nome, sobrenome, rosto, história, singularidade e, pior: saudade! Lembrei do Dufresne e que: “Nem todo pássaro nasceu para a gaiola, pois suas penas brilham demais”. Era segunda-feira e, a criança que sempre ansiava pela visita dos missionários à minha casa, estava com eles no shopping sugerindo algo brasileiro, com sustança… pisquei e percebi que tava entregando uma sacola de presentinhos, um cartão postal e alguns rabiscos ao verso… Só após esticar a despedida com um açaí, percebi que era hora de deixar ele voar. Não haveria açaí suficiente em toda Feijó ou qualquer outra demanda culinária regional que pudesse segurar o voo do nosso novo amigo pra bem longe. É bem provável que o próximo a chegar lá por casa volte a ser só mais um rosto, com plaquinha e sotaque pesado, como tava sendo; e eu volte à rotina de tratamento protocolar. Mas a reflexão não pegou aquele voo das 23h, ficou por aqui, na mesa lá de casa ou do shopping ou no balcão do açaí. O fato é que, há pessoas que passam pela vida da gente pra nos ajudar a lembrar que os dias não são todos iguais, ou pelo menos não precisam ser, que cada rosto é um rosto, que traz consigo suas marcas, que cada nome carrega uma história e que, debaixo de cada língua pesada de sotaque arrastado há algo diferente e especial pronto a ser dito. Elas ficam pouco tempo pra que a lição seja aprendida logo e tenha mais tempo pra ser praticada. Chegam devagar, pra não assustar o aprendiz e vão de repente, pra não substituir a saudade pelo aprendizado. Sabe, acho que cabe a cada um de nós, avaliar, de tempos em tempos, se não há alguém por perto querendo nos ensinar algo de valor, do tipo de coisa que desperte a capacidade de enxergarmos singularidade nas pessoas que cruzam nosso caminho, pra que enxerguemos rosto, decoremos nome e lembremos com gratidão de quem, talvez, esteja prestes a voar, e a gente nem saiba… Aproveitemos, afinal, todo pássaro de pena brilhante merece voar. E, vai por mim, eles sempre voam! [Porque quando a pena brilha, a gaiola não segura].

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