Levantou-se e foi até a mesa para se medir, e descobriu que, pelo que podia calcular, tinha agora cerca de sessenta centímetros de altura e continuava encolhendo rapidamente (…). Logo percebeu que estava na poça de lágrimas que ela mesma havia chorado…(Capítulo II, Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carroll.)
E a Alice, hein? Que, no país nem tão maravilhoso assim, se viu com água salgada até o queixo? Não trouxe lá em cima a informação de que a poça tinha apenas 10 cm de profundidade, mas trago o lamento dela, da Alice, enquanto nadava em círculosà procura da saída de si mesma: “Quem me dera não ter chorado tanto! Serei punida por isso agora, suponho, afogada em minhas próprias lágrimas! Isso certamente será estranho! No entanto, tudo está estranho hoje.” 75cm! Zombei por um bom tempo da compra aqui pra casa: uma piscina de lona pra amenizar as tardes que beiram os 40°C dessa época. Não vou relatar o trabalho que deu pra acomodá-la no quintal, deixa pra próxima, mas faço questão de relatar minha surpresa após subestimar a aquisição. Foram quase duas semanas tentando vencer o orgulho bobo, até que o vapor infernal de setembro empurrou meus 1,87 de altura para os nada atrativos 75cm de água morna. Quase não passou do joelho, confesso, mas o óbvio foi descoberto imediatamente; e a perspectiva sobre a profundidade, o calor, a piscina e eu, não mudou quando ela, magicamente, esticou a napa e chegou aos 1,88m, passando do topo da minha cabeça e satisfazendo minha sensação de grandeza. Não! Mudou quando eu sentei! Me encolhi e aceitei a realidade posta a minha frente. Agora, pequeno, a piscina parecia grande, e a água já quase batia no queixo. Aproveitei ali, agachado, enquanto ensaiava até uns pequenos e tímidos mergulhos, por uns 20 minutos, quando, já meio trêmulo e com os dedos enrugados, decidi sair. Não tive dificuldade pra achar a saída, afinal, era só levantar o pé e superar os 75cm da caixa. Levantei e, a perspectiva mudou novamente, ou voltou à normalidade, sei lá. Só sei que, dali em diante, não havia mais possibilidade de mergulho. Era água na canela de novo. Eu grande, e a piscina pequena. Não tinha mais água no queixo. Simplesmente, a perspectiva mudara porque eu articulei a planta dos pés, apoiei as mãos sobre o chão, desdobrei os joelhos e, sem mágica e maravilha, me PUS DE PÉ. Descobri, ali, molhado,naquela tarde quente, de vapor suficiente pra vencer orgulho, que a realidade de cada um, muitas vezes, depende do modo como nos posicionamos frente a ela. Aprendi ainda que, os problemas parecem ser muito maiores quando nos ENCOLHEMOS pra cabermos em superfícies que “nem dão pé”. Percebi que, às vezes, só enxergamos o quanto o que quase nos afoga é RASO, quando nos afastamos e resolvemos olhar pra situação não quando estamos com a água no queixo, nadando em círculos em meio ao sal diluído das nossas próprias lágrimas numa poça de 10cm de profundidade, em busca de uma saída que nos livre de nós mesmos; mas sim, quando desdobramos os joelhos, apoiamos as mãos na napa sobre o chão e nos colocamos DE PÉ! Afinal, o que quase matou Alice, no dela e no nosso mundo nem tão maravilhoso assim, não foi a poça de lágrimas que batia no queixo, ela só botara pra fora aquilo que não cabia mais dentro dela, mesmo sendo grande, e tá tudo bem quando isso acontece, mesmo com a gente. Até porque, quando a água inunda a nossapiscina interior, ela transborda. Então, o que, de fato, quase matou Alice, de verdade? Acho que não foi o choro, a fraqueza, a poça, o lamento ou as lágrimas… Acredito, até debaixo d’água, que foi elater DIMINUÍDO de tamanho enquanto chorava. Afinal, [Quando a gente se apequena, acaba se afogando no raso].

