Rio Branco, Acre - quinta-feira, 13 agosto, 2026

(…) PUXA O GUINCHO E DEITA!


“Rip van Winkle”- Um clássico conto americano que narra a estória de Rip: um homem meio ranzinza, de ritmo pacato e de pouca ambição. Relata-se que ele saiu para as montanhas e, entre uma distração e outra, dormiu por ali mesmo. Quando acordou: George Washington era o presidente, 20 haviam se passado e, ele havia dormido durante todo o período de um dos eventos mais importantes da história: a Revolução Americana. Parei de contar no três. É o número de pessoas que me perguntaram como fora minha experiência na maior feira agropecuária do Estado. Não me levem a mal, não sou ranzinza e nem tão pacato assim, mas, não me vai a multidão passante pelos corredores quadrantes do lindo espaço da Exposição. O som alto e a fila quilométrica de carros e… não sei se é pessoal, entre mim e a feira, mas, pelas bandas daqui, de onde sento e reflito sozinho pra escrever, enquanto a noite faz seu barulho lá fora, a rotina dos admiradores de Rip muda drasticamente: a ida ao mercado é até às 16h, dali em diante, é contar com a banquinha da esquina; torça pra não precisar ir à rua e, por aí vai, ou não vai. E eu não fui! Não imitei o personagem do clássico americano, mas, do meu muro, sob o céu não encoberto pelos refletores, cantei com o Bruno servido um copo gelado [água] numa mão e o pano de prato na outra. Confesso que quase dancei com Ana Castela ao som do “Peão to…” e, enfim… isso já é roteiro pra uma outra hora. Já passada a boiada, o movimento agora é outro: é sob a batuta de caçambas, caminhões e baús; é o momento da desmontagem do aparato. Garanto isso porque, na quarta, voltando pra casa, sem a fila quilométrica da última semana, quase paro o carro pra fotografar a cena a seguir; tentar narrar com concisão: em frente ao desmonte da feira, ao ritmo do maquinário em ação, já sem nenhum artista, eis uma rede! Sim, de punho, malha e corda. Ali mesmo, às margens da situada Chico Mendes. O detalhe a seguir remonta os tempos de Rip van Winkle: o trabalhador deitara com a rede amarrada ao cabo do guincho! Era o sono em meio à revolução! Ele descansara do jeito que dera. Do modo que a vida, ali, se apresentava. Da maneira que se fazia possível. E nada pode provar que isso não funcionara, pelo menos naquele momento. Eu não dormi durante toda a ExpoAcre, não se passaram 20 anos e nem nada disso; nem garanto a veracidade do conto americano. Mas, uma coisa eu sei: chega uma hora na vida da gente, em que a percepção sobre tudo muda, tudo mesmo: a grama do quintal vira pista de show. O muro vira alambrado de proteção de festa. O céu vira cobertura de salão. O pano de prato no ombro, companhia. Admiro a habilidade de quem se aventura lá fora, na ordem correta e alheia a essa versão de diversão inversa criada nesse texto. Mas admiro também quem, em meio ao barulho ensurdecedor que, às vezes a vida faz, quando as rodas pesadas do trator da angústia parecem esmagar nossas emoções ou quando o ruído do pistão da carreta da solidão, lamúria ou culpa procura nos tirar da frequência da paz interior, mesmo assim, quando e quando e quando, em meio às obras de desmonte que a vida planeja, vez ou outra, sem nosso aceite, ainda assim… admiro aquele que consegue achar uma forma de se proteger, descansar e de se resguardar em meio ao caos: levanta, posiciona a máquina, finca as bases da estrutura ao solo, abre a rede, estica o punho, ali mesmo, às margens da pista da vida, PUXA O GUINCHO E DEITA. [às vezes é só disso que a gente precisa, e acordar lá pra depois de toda a revolução].

 

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