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A cadeia produtiva do mel no Acre começa a ser redesenhada a partir de uma estratégia que vai além das colmeias e coloca o olhar no ponto de partida da produção: o alimento das abelhas. A instalação dos primeiros viveiros de mudas voltados ao pasto apícola e meliponicular marca uma mudança de lógica no estado, onde produzir mel deixa de ser apenas uma atividade extrativista e passa a incorporar planejamento, técnica e previsibilidade.
A iniciativa, conduzida pela Secretaria de Estado de Agricultura (Seagri), prevê a implantação de cinco viveiros em diferentes regiões, com capacidade de atender aproximadamente 350 produtores. Mais do que ampliar a produção, a proposta busca estruturar uma base sustentável para a atividade, garantindo oferta contínua de recursos florais para abelhas com e sem ferrão ao longo de todo o ano.
Engenheira florestal da Seagri, Zandra Vela explica que o fortalecimento da cadeia não pode ser pensado apenas a partir das abelhas. Segundo ela, o sucesso da atividade começa no ambiente em que essas espécies estão inseridas. “Quando o produtor decide implantar um apiário ou um meliponário, ele precisa considerar, antes de tudo, o alimento das abelhas. São as espécies vegetais que vão fornecer os recursos florais necessários. Sem isso, não há produção consistente”, afirma.
A criação do chamado pasto apícola — conjunto de plantas que garantem floradas em diferentes períodos — também tem impacto direto na polinização e, consequentemente, na produção de alimentos. “Além de alimentar as abelhas, esse processo garante a polinização, que é essencial para a nossa segurança alimentar. É uma cadeia que se conecta”, reforça Zandra.

Na prática, os viveiros funcionam como base para essa transformação. Neles, serão produzidas mudas de espécies estratégicas para compor o pasto apícola, permitindo que produtores planejem a atividade com mais segurança e eficiência. Paralelamente, a capacitação técnica inclui orientações sobre manejo e técnicas como o uso de iscas para captura de abelhas sem ferrão, etapa considerada fundamental para quem inicia na atividade.
Responsável pela implantação dos viveiros, o engenheiro florestal Vicente Simões destaca que a principal mudança está na possibilidade de organizar a produção ao longo do ano. “Com o pasto apícola, o produtor passa a ter alimento disponível de forma contínua para as abelhas. Isso permite programar melhor a produção e estimar a quantidade de mel que será obtida”, explica.
A expectativa, segundo ele, é de um salto significativo na produtividade. Com a estruturação dos viveiros e o fortalecimento da base alimentar das abelhas, a projeção é de aumento de até 30% na produção de mel no estado. “A tendência é que a gente amplie a produção e, consequentemente, a renda dos produtores que trabalham com o mel”, afirma.

O ponto de partida, sendo o Vicente, é Rio Branco, porén, novos viveiros devem ser implantados em regiões estratégicas, como Bujari, Xapuri, Cruzeiro do Sul e Senador Guiomard, ampliando o alcance da política pública e consolidando a cadeia do mel como alternativa de geração de renda no Acre.
Segundo Zandra, mais do que um projeto pontual, a iniciativa aponta para um reposicionamento da atividade no estado. Ao investir na base da produção — o pasto apícola —, “o Acre começa a construir um modelo que alia conservação ambiental, planejamento produtivo e fortalecimento da agricultura familiar, transformando o mel em um ativo econômico cada vez mais estratégico para a região”.
