Professor Alexandre alerta para risco climático extremo e critica falhas do Plano Diretor

Foto: Reprodução 

O pró-reitor de Planejamento da Universidade Federal do Acre (UFAC), professor Alexandre Ricardo Hid, fez uma das intervenções mais duras e técnicas durante a audiência pública que discute a revisão do Plano Diretor de Rio Branco. Em tom de alerta, afirmou que a capital acreana não está preparada para enfrentar o cenário climático que já avança sobre a cidade, e que a nova legislação urbanística não incorpora com a seriedade necessária as medidas de adaptação às mudanças climáticas.

O professor abriu a fala lembrando a enxurrada de 23 de março de 2023, no Igarapé São Francisco, considerada a mais intensa do período recente. Naquele dia, Rio Branco ainda vivia os impactos do fenômeno La Niña, acumulando anos de alterações no regime de chuvas e variações extremas de precipitação. “As nossas margens não estão mais plácidas. O grito tem vindo da natureza e das populações vulneráveis empurradas para as margens dos rios”, disse.

Alexandre ressaltou que a cidade está cada vez mais impermeabilizada, com ocupações em áreas sensíveis e supressão de vegetação que antes funcionava como proteção natural. Para ele, os sinais de colapso já são visíveis: enxurradas mais rápidas, maior volume de água em períodos curtos e rios incapazes de suportar o fluxo.

Segundo o professor, o Plano Diretor em discussão ainda não trata com profundidade a chamada infraestrutura verde, essencial para conter enchentes, proteger nascentes e reduzir impactos de ocupação urbana. “Estamos priorizando a infraestrutura cinza, mas esquecendo aquilo que é mais precioso: a infraestrutura verde. Sem ela, a cidade vai seguir pagando um preço muito alto”, afirmou.

Ele fez uma crítica direta às mudanças promovidas no Plano Diretor de 2016, que reduziram drasticamente as áreas de preservação permanente do Igarapé São Francisco — um recuo que, segundo ele, já se traduz em prejuízos concretos. “Foram 433 campos de futebol de APP suprimidos. Isso não é apenas um número. É o motivo pelo qual a cidade sofre como sofre. A enxurrada de 2023 gerou prejuízo estimado em mais de R$ 800 milhões. Quem paga essa conta? A população? O orçamento público? Ou quem autorizou essas mudanças sem responsabilidade com o futuro?”, questionou.

Alexandre defendeu que o novo Plano Diretor, previsto para vigorar até 2026, precisa repor critérios de proteção que existiam nas versões de 1986 e 2006, consideradas mais alinhadas aos princípios de preservação das bacias hidrográficas. Ele destacou, ainda, que a Rio Branco de hoje depende de estudos profundos sobre bacias como as do São Francisco, Redenção e Rio Acre, e que essas áreas precisam voltar a ser tratadas como eixos centrais de planejamento.

O professor também mencionou o acordo de cooperação entre a UFAC e o Tribunal de Contas do Estado (TCE-AC), que realiza estudos sobre mitigação de enxurradas e impactos hidrológicos. “A legislação precisa dar base para ação técnica. Sem isso, não há como responder ao ritmo das mudanças climáticas. E elas já estão aqui, acontecendo, ultrapassando nossa capacidade de resposta.”

Ao concluir, fez um apelo para que a Câmara Municipal trate a revisão do Plano Diretor como um instrumento de proteção da vida urbana. Para ele, a cidade só será sustentável se o texto final incorporar salvaguardas ambientais robustas e eficazes. “Precisamos de coragem para corrigir o que foi suprimido e preparar Rio Branco para o futuro — não um futuro distante, mas o que já começou.”

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