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A possível inclusão da tilápia na lista oficial de espécies exóticas invasoras voltou a mobilizar produtores, exportadores e entidades ligadas à aquicultura em todo o país. A proposta será analisada pela Comissão Nacional de Biodiversidade (Conabio) no próximo dia 27 de maio e, caso aprovada, poderá provocar impactos econômicos relevantes para a cadeia produtiva do pescado brasileiro.
O alerta foi reforçado após a divulgação de um estudo técnico elaborado pela Associação Brasileira da Piscicultura (PEIXE BR), que aponta riscos comerciais, sanitários e ambientais decorrentes da eventual classificação da espécie.
Segundo a entidade, o principal temor é que a decisão seja interpretada internacionalmente como um reconhecimento oficial do governo brasileiro de que a tilápia representa ameaça ambiental. Isso poderia abrir espaço para restrições comerciais em mercados estratégicos, além do aumento de barreiras sanitárias e exigências ambientais para os produtos brasileiros.
Atualmente, os Estados Unidos concentram cerca de 85% das exportações brasileiras de tilápia. O mercado movimenta aproximadamente US$ 35 milhões por ano e é considerado um dos pilares da expansão recente da piscicultura nacional.
A PEIXE BR lembra ainda um precedente internacional envolvendo a carpa asiática nos Estados Unidos. Em 2010, a espécie foi classificada como invasora no país norte-americano, provocando uma queda abrupta nas exportações chinesas do pescado, que recuaram cerca de 97% em apenas um ano.
Com base nesse cenário, a associação estima que uma eventual decisão semelhante envolvendo a tilápia no Brasil possa causar redução de até 90% nas exportações da espécie em um intervalo de seis meses. O prejuízo projetado para a cadeia produtiva ultrapassaria US$ 38 milhões.
Além dos impactos diretos sobre a tilápia, o estudo também alerta para possíveis reflexos em outros segmentos da aquicultura brasileira. Espécies nativas, como tambaqui e pintado, poderiam enfrentar maior rigor em auditorias internacionais, ampliação das exigências sanitárias e desgaste da imagem do setor brasileiro no mercado externo.
Outro ponto considerado preocupante é o risco de comprometimento de certificações internacionais importantes para a atividade, como BAP, ASC e Global G.A.P., que possuem critérios rigorosos relacionados ao controle ambiental e manejo de espécies.
Mato Grosso do Sul se destaca nas exportações
O avanço da tilapicultura brasileira nos últimos anos tem sido impulsionado principalmente por estados como Paraná, São Paulo e Mato Grosso do Sul. Dados do Sistema Famasul mostram que Mato Grosso do Sul ampliou em mais de 3 mil por cento o volume exportado da espécie em apenas três anos.
Em 2023, o estado exportava cerca de 55 toneladas de tilápia. Já em 2025, o volume se aproximou de 2 mil toneladas, gerando receita superior a US$ 10 milhões.
O crescimento acompanha a expansão da produção local. Informações do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) apontam que a tilápia liderou o ranking das espécies mais cultivadas no estado em 2024, com produção próxima de 22 mil toneladas.
Já a Agência Estadual de Defesa Sanitária Animal e Vegetal (IAGRO) informou que a movimentação de peixes para abate cresceu 25,3% entre 2023 e 2025.
Somente nos dois primeiros meses de 2026, mais de 3,9 milhões de peixes foram abatidos no estado, alta de 13,4% em comparação com o mesmo período do ano anterior.
No cenário nacional, Mato Grosso do Sul ocupa atualmente a terceira colocação entre os maiores exportadores brasileiros de tilápia, atrás apenas de Paraná e São Paulo. Dados da Secretaria de Comércio Exterior (Secex) mostram que, entre janeiro e fevereiro deste ano, o estado exportou cerca de 265 mil quilos do pescado, movimentando mais de US$ 1,6 milhão.
