Foto: Bruno Fontinele
ARTIGO
O Acre vive uma contradição que poucas vezes aparece nos discursos oficiais: crescemos como nunca, mas seguimos com as mãos atadas. A apresentação da Lei Orçamentária Anual de 2026 escancarou uma realidade incômoda — e estrutural. O estado coleciona indicadores positivos, lidera rankings, reduz violência, aumenta exportações e registra o maior salto de PIB da Amazônia. Mas nada disso tem sido suficiente para transformar crescimento econômico em autonomia fiscal.
O secretário Ricardo Brandão celebrou, com razão, o avanço expressivo do PIB acreano: 14,7% em 2023, cinco vezes acima da média regional e muito superior ao desempenho nacional. É um número que chama atenção e revela um Acre em expansão. Só que o orçamento mostra outra face desse avanço: quase tudo o que entra sai imediatamente comprometido.
Dos R$ 9,33 bilhões efetivamente disponíveis para 2026, apenas 11,17% ficam nas mãos do Poder Executivo para manter o estado funcionando, investir, responder a crises climáticas, atender municípios, reforçar políticas sociais e agir em infraestrutura. Não há fôlego. Não há margem. Não há espaço para correr quando a máquina pública consome, sozinha, mais de R$ 7 bilhões em pessoal, dívida, repasses e despesas obrigatórias.
É o paradoxo que ninguém gosta de admitir: o Acre avança para fora, mas ainda tropeça para dentro. Temos um estado que cresce, mas não expande sua capacidade de respirar.
A literatura econômica é clara: países e estados que investem menos de 20% da receita não conseguem sustentar ciclos de desenvolvimento. O Acre, com 3,72% destinados a investimentos, não está apenas distante dessa meta — está reduzido a administrar prioridades, não a construí-las. O crescimento existe, mas não se converte em poder de transformação.
O orçamento ainda nasce pressionado. A nova faixa de isenção do Imposto de Renda retira R$ 48 milhões antes mesmo da LOA ser votada. A reserva de contingência dispara por causa dos eventos climáticos. E a dependência do Fundo de Participação dos Estados permanece como pilar absoluto da receita.
Isso não invalida os avanços — mas revela seus limites. Crescer não é o mesmo que se consolidar. Produzir não é o mesmo que transformar. E liderar rankings não significa, necessariamente, melhorar a vida real das pessoas.
O desafio do Acre para 2026 não será repetir indicadores de alta performance. Será converter esse desempenho em margem fiscal, autonomia e capacidade de investimento. Porque, enquanto o estado continuar respirando por aparelhos orçamentários, qualquer progresso corre o risco de ser apenas estatístico — não estrutural.
O crescimento existe. O gargalo também. E foi justamente a LOA que, silenciosamente, pôs isso à mesa.
