Rio Branco, Acre - quinta-feira, 30 abril, 2026

O MUNDO ACABOU: SÓ A GENTE FICOU E EU NÃO CORRO MAIS

Ando devagar porque já tive pressa
E levo esse sorriso (…) Penso que cumprir a vida seja simplesmente
Compreender a marcha e ir tocando em frente (Renato Teixeira/Almir Sater)

Era 2012. O ano em que o mundo acabou. E olha que não é nem somente ironia deste que vos escreve. Tem uma galera por aí que jura que o mundo acabou mesmo e foi a gente que ficou de castigo por aqui. Era à tarde. E ela se aproximou de mim vindo não sei de qual direção, por qual calçada, sem qualquer preliminar ou introdutória comportamental que exige a etiqueta do convívio social e soltou: – “ Já percebeu que o tempo tá passando mais rápido e que o povo só corre? ”. E só! E ela passou! Por mim tão rápido quanto o tempo passa por nós. Óbvio que nunca mais a vi e não a identificaria nem se tivesse todo o tempo do mundo. Já faz uns quatorze anos, muito tempo; e justo numa época em que eu vivia acelerado. Correndo contra o tempo, numa maratona de bem mais que quarenta e dois quilômetros, como pede qualquer regulamento profissional. Era bem mais jovem e, nem por isso, ou talvez por isso, por tolice, não fazia ideia que o tempo corria ao meu favor. Então: andava rápido. Comia rápido. Falava rápido. Cansava pouco e não vivia muito. Hoje, aquela senhora desconhecida, talvez numa abertura de portal do tempo, num multiverso em que nos conhecêssemos, ficaria orgulhosa de mim. Afinal, eu não CORRO mais! Resolvi deixar o tempo passar rápido enquanto eu vivo devagar. Abandonei a maratona! A prova veio na última semana, ao usar transporte por aplicativo. No meio do trajeto, pergunto ao motorista se ele podia me esperar enquanto descia pra comprar comida. O olhar de decepção seria o suficiente como resposta, mas ele acrescentou, num tom ranzinza e veloz: “Devia ter colocado no app, se descer, vai ter que correr! É calculado o tempo no pagamento. ” Primeiro pensamento: Desço. Corro bem rápido e economizo. Mas espera. Espera um pouco: Eu não CORRO mais! Desde 2012. Sorri! Desci bem devagar. Comprei. Voltei e não CORRI! Acrescentei um “valor de consciência” via PIX e segui até minha casa, onde comi, bebi e vivi o resto do dia… tudo devagar… Há, e sempre haverá momentos na vida da gente, em que precisaremos fazer paradas não programadas no caminho até nosso destino. Mas isso não significa que precisaremos correr. Até papeei brevemente com o dono, sorri pro churrasqueiro e fui simpático com a moça do caixa. A vida acontece mesmo é nas paradas não programadas, não obrigatórias, fora da rota e do preço calculado. Se, daqui a um tempo, o tempo quiser me encontrar ou me cobrar taxa de espera, que venha! Paguei. Tá tudinho lá no histórico do motorista. Então, não me peça mais pra correr. Eu NÃO CORRO MAIS. Até porque, o mundo já acabou há muito tempo mesmo, né? E só a gente ficou.

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