“(…) Esses que puxam conversa sobre se chove ou não chove — não poderão ir para o Céu! Lá faz sempre bom tempo. ” (Mário Quintana)
Será que eu não vou por conta disso? Foi a primeira coisa que pensei depois de ontem quando, inesperadamente, um contraparente gente boa, mas daqueles da ordem de que só se cumprimenta com gestos de aceno, um sorriso riscado de canto ou com um apelativo: “Será que vai chover?” resolveu me fazer breve companhia. Não me sobrou outra alternativa mais criativa após o convite dele pra se sentar à minha mesa, enquanto tomava um açaí de retorno pra casa. A ideia era ficar só. Mas havia chovido, e, foi minha “deixa’ pra não deixar o silêncio falar por mim. Será que perdi minha vaga no céu, Quintana? Se me cabe a apresentação de defesa, quero que conste nos autos esse trecho do noticiário local, pra provar que meu argumento tem base climatológica: (…) “A capital registrou 91,4 milímetros de precipitação em menos de 24 horas, o maior volume já registrado para o mês de junho desde o início das medições, na década de 1960” ( A Gazeta do Acre). Sou inocene! juro que não foi uma pergunta seca, vaga, vazia… Não! E continuo com a palavra: foi de segunda pra terça, um dia antes do encontro ao qual tenho me referido, meritíssimo. Ainda recordo de ter me atrasado naquela manhã, afinal, a luz do sol não adentrou na minha janela ao amanhecer e, o ruído quase que anestésico da chuva adormeceu meu relógio biológico. Ademais, Excelência, acrescento um relato íntimo e introspectivo que, decerto, reverbera minha tese: já disse, foram dois dias atípicos de chuva em pleno junho amazônico e, já no segundo dia da boa surpresa pluvial temporã, ao sair do trabalho, me deparo com uma precipitação de volume considerável. Geralmente, nesse tipo de situação, eu constumo esperar o céu se abir pra eu poder passar, mas, nesse dia em questão, não! resolvi simplesmente cruzar a porta, afinal, quem vai pra casa não se molha. Me molhei! Mas continuei a andar. A chuva não dava trégua e o carro tava distante. Mas ainda assim, eu andava, andava e andava… Já pela metade do caminho, os pingos já não caíam tão ritmados, o volume e a frequência da precipitação também já não eram os mesmos do início da caminhada. E, antes que chegasse ao destino, o primeiro e tímido raio de sol irradiou meu horizonte à frente do asfalto molhado. Ao final, seu juiz, lembro que ainda caminhei alguns bons metros sob a luz do sol, com o rosto úmido, porém viscoso e aquecido pelo veraneio. Foram os metros de satisfação que me encorajaram a fazer esse relato. Encerro aqui minha defesa e peço a consideração do juri. E, ao mesmo tempo, saio do personagem de réu, criado pelo poeta Mário Quintana e me declaro inocente da acusação de desleixo social e defendo a permanência da minha vaga no céu. Agora, antes de declarar o resultado da sentença, se é que terá, aproveito a estiada pra fazer uma reflexão nem tão meteorológica assim: Haverá vezes, entre uma e outra estação da nossa passagem, seja ela qual for, poderá ser na colorida primavera, no frio do inverno, no cálido outono ou no calor do verão, a possibilidade da ocorrência de eventos climáticos que mudarão nossa perspectiva sobre o tempo e nossa caminhada pelo asfalto molhado da vida; poderão ser chuvas, como a dessa semana, essas que vêm fora de época, sem avisar, sem constar nos boletins, fortes, com muito volume, fazendo estrago, virando notícia… o que mais preocupa é o fato de nunca sabemos quando ela vai começar e, muito menos, quando que termina. Mas garanto, na posição de réu: sempre termina! uma hora, diminui; na seguinte, passa e, quando menos a gente espera, o primeiro raio sai, tímido, entre nuvens, mas sai! Sempre o sol sai depois de uma chuva. Sempre! Por fim, na posição de um quase absolvido, acrescento, diante das testemunhas que leem o presente depoimento: Nem sempre, a chuva vai passar antes que tenhamos a coragem suficiente pra sairmos do nosso abrigo e a encararmos lá fora, enquanto ela ainda cai. Será necessário lutar contra a tormenta e caminhar, mesmo que enxarcado, até que sejamos dignos que o sol se abra novamente sobre nossa cabeça. Espero que minha vaga no céu não seja comprometida por ter puxado assunto se vai ou não chover, mas acredito que não. Até porque, concordo com Mário Quintana: no céu, de fato, o tempo deve sermpre ser bom e nunca deve nem chover; mas sabe, creio, até debaixo d’água, que nele só vai entrar quem teve coragem suficiente pra enfrentar as tempestades da vida. Quem não teve medo de chuva. Quem saiu enquanto ela ainda ritmava. Afinal, ninguém chega enxuto por lá. Por que o céu não é pra todos: O céu é pra quem se molha!

