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No palco da maior vitrine do café brasileiro, o Acre encontrou espaço para falar sobre algo maior do que grãos torrados e notas sensoriais. Falou sobre gente, floresta e dignidade. Durante a Semana Internacional do Café, realizada em Belo Horizonte, o secretário de Produção e Agronegócio, José Luís Tchê, levou à plateia um relato visceral sobre o que significa produzir dentro da Amazônia e tentar prosperar sem derrubar a floresta.
Em um auditório dominado por sotaques do Sul e do Sudeste, o representante acreano provocou reflexão ao afirmar que a cafeicultura no Norte do país é antes de tudo um ato de resistência. “O produtor rural da Amazônia é quem mais paga pela preservação. Produzir com floresta em pé tem custo, mas também tem propósito”, afirmou, sob aplausos.
O discurso, que emocionou o público, foi costurado com histórias reais de superação. Entre elas, a de Gabriela Tavares, agricultora que deixou o trabalho urbano e voltou para a colônia com o filho nos braços para cultivar café. Hoje, ela integra um grupo de mulheres que estão mudando a paisagem rural do Acre e a percepção sobre o papel feminino no agronegócio amazônico.
Tchê destacou que o café se tornou uma das principais apostas econômicas do estado, alcançando centenas de famílias e reposicionando o Acre no mapa da produção nacional. Ele lembrou que o cultivo começou de forma tímida, ainda nas décadas de 1960 e 1970, quando mudas trazidas de forma quase clandestina abriram caminho para o que hoje é uma cadeia em expansão. “Durante muito tempo disseram que aqui não dava. Hoje, o Acre exporta qualidade e mostra que é possível fazer agricultura de verdade dentro da floresta”, disse.
Entre os desafios citados pelo gestor estão os embargos ambientais e a falta de recursos destinados diretamente à produção familiar. O secretário defendeu que as políticas públicas precisam ser reequilibradas. “Temos milhares de produtores impedidos de trabalhar e 85% do nosso território coberto por floresta. Precisamos de investimento para recuperar, não para destruir. Produzir com consciência é mais caro, mas é o único caminho possível”, destacou.
O Acre participou pelo segundo ano consecutivo da Semana Internacional do Café com um estande próprio, reunindo produtores, viveiristas e técnicos. A presença do estado no evento simboliza um novo momento para a cafeicultura local, que passou a ser reconhecida pela qualidade do robusta amazônico — variedade que colocou o Acre, recentemente, entre os quinze melhores cafés do Brasil.
Durante a apresentação, Tchê também citou programas estruturantes criados pelo governo estadual, como o Mecanizar Mais, que apoia o uso de tratores e sistemas de irrigação em pequenas propriedades, e o programa de compra direta de mudas de viveiristas locais, iniciativa que estimula a economia regional e reduz perdas no transporte.
Ao final, o secretário sintetizou o espírito de transformação que move a nova geração rural acreana. “Por muito tempo, o produtor amazônico foi visto como um obstáculo. Hoje, mostramos que ele é parte da solução. O café nos devolveu voz, dignidade e o direito de sonhar com prosperidade dentro da floresta”, declarou.
