“Nenhum homem é uma ilha (…) Como se fosse o solar de teus amigos ou o teu próprio; a morte de qualquer homem me diminui, porque sou parte do gênero humano. E por isso, não pergunte por quem os sinos dobram; eles dobram por ti.” (John Donne in Meditações – XVII (1623).
Os sinos da idade média tocaram no meu celular na noite da última quarta-feira. O badalo veio por mensagem, e a escrita do pergaminho digital continha uma pergunta seguida por uma reflexão: “ Lembra dele?”. Demorei uns três minutos até poder responder com sinceridade. Lembro! A foto era de um jovem da época de escola. Ele faleceu, disse meu amigo. Nesses casos, costumo reagir no ritmo, som e compasso da etiqueta social.
Afinal, só sabia o primeiro nome. Não sabia o endereço, telefone, gosto, paradeiro, estado civil, profissão… só uma foto e a memória enlatada de quem eu lembrara que um dia ele fora. Pouco pra suscitar qualquer lembrança afetiva que merecesse mais do que uns seis ou sete caracteres na minha resposta. E eu encerraria minha interação pragmática com um singelo: “ Que triste”! Mas o badalo do meu amigo seguiu: “… A gente corre tanto, que não para pra viver…” Reabri o arquivo e parei pra observar a foto e, dessa vez, escutar os sinos com um pouco mais de atenção.
O que eles disseram pra mim no silêncio daquela noite fica comigo, bem guardado no tilintar da memória. Mas posso compartilhar que lembrei da ilha, do poeta Donne, dos sinos, do badalo, do passado, da vida, da morte, dos amigos, vizinhos, parentes… de quase tudo.
Mas, principalmente, lembrei que faço parte do gênero humano e que, nesse arquipélago, de maré inconstante, de mar revolto, rochoso e salgado que conhecemos por vida, a morte de alguém sempre nos diminui; afinal: NENHUM HOMEM É UMA ILHA. NENHUM.

