“Ícaro, meu filho, recomendo-te que voes a uma altura moderada, pois, se voares muito baixo, a umidade emperrará tuas asas e, se voares muito alto, o calor as derreterá. Conserva-te perto de mim e estarás em segurança.”
A frase é de Dédalo, pai de Ícaro, personagem da mitologia grega. Conta a estória que, pra fugirem do temido labirinto de Minotauro, construíram asas com madeira e penas de pássaros, coladas na estrutura com cera de abelha. A engenharia funcionou. Ícaro voou! Só que, a beleza lá de cima, aquela, que talvez ele jurara nunca contemplar, o encantou tanto a ponto de esquecer o conselho do pai. Chegou tão perto do sol que as asas derreteram. Caiu ao mar. Foi na última quinta, na Tribuna, no espaço de madeira, revestido com carpete, que o “Sr. José”, coveiro, me fez interromper o corriqueiro revezamento entre a escuta e a escrita. Parei, por uns sete minutos, de escrever, e só ouvi! Acho que ele, pelo menos naquele tempo que tinha pra voar, também resolveu aproveitar as asas que ganhara no Plenário e, tentou chegar o mais próximo possível do sol: um lugar mais acima, bem fora do chão, do barro, da terra dos cemitérios, um espaço distante, de onde ele pudesse ser visto, ouvido e atendido; foi um voo necessário. Nos sete minutos, ele reivindicou por dignidade, cobrou condições de subsistência e clamou por justiça e visibilidade. Ainda vou terminar meu registro da fala dele. É meu trabalho. Mas rabisquei alguns trechos. Abro aspas pro voo corajoso do “seu José”: “ A gente tá morrendo, todo dia um pouquinho”; “ Se o coveiro almoça, ele não janta”; Daqui a pouco, vai ser alguém que vai enterrar a gente”; “ Só se lembram de nós quando alguém morre”. E ele seguiu seu voo… “ Já? Passa muito rápido, né?”Foi a última frase dele antes que o agudo, fino e estridente barulho da campainha da mesa interrompesse a jornada do “seu José”. Foi o calor abrasante nas costas aladas de Ícaro na forma de som. Terra no José! Naquele momento, o voo pelas alturas da indignação e da notoriedade social foi interrompido. “Seu José” caiu ao mar. Mesmo assim, agradeceu. Desceu os degraus do chão de madeira encarpetado, recolheu o que sobrara das asas e se foi, só que agora andando. Li que há muita gente que critica a atitude de Ícaro. Dizem que foi irresponsável, desobediente, egoísta… mas sei lá, quem sabe como foi a vista dele, lá de cima, perto do sol, enquanto as asas batiam onde ninguém mais voava? Chegam momentos na nossa vida, em que, só se manter na rota de segurança, sempre ali, constantes numa altura moderada, com condições conhecidas e perfeitas de voo, já não nos é suficiente. As asas anseiam por bater mais pra longe. Palavras anseiam por serem ditas. Verdades, por serem mostradas. “Seu José” me ensinou isso, em cima da tribuna, no chão encarpetado, enquanto fazia seu voo de liberdade e por dignidade. Por uns sete minutos, tal qual Ícaro, ele contemplou sua jornada de um lugar onde nenhuma pá pudesse enterrar seus sonhos e nenhum labirinto o pudesse confundir. Um lugar sem terra. Sem cova. Sem lápide. Sem luta. Um lugar só seu. Todo seu. Então, se for pra eu continuar com meus sonhos enterrados, ou sempre na mesma altura pelo céu da vida, melhor eu me arriscar. Prefiro sete minutos no alto, bem alto, perto do sol, onde me sinta bem vivo, do que uma vida toda no chão, no barro. Sim, NEM QUE MINHAS ASAS QUEIMEM.

