Moradores do Papoco pedem respeito e melhorias durante audiência pública

Foto: Correio Online

Foto: Correio Online

Com lágrimas, desabafos e histórias de vida, os moradores do Papoco transformaram a audiência pública realizada na segunda-feira, 10, na Câmara Municipal de Rio Branco, em um ato de resistência. No plenário, vozes que há anos se dizem esquecidas pelo poder público pediram que a Prefeitura recue da intenção de remover famílias da área e, em vez disso, invista em melhorias e políticas sociais.

A reunião, convocada pelo vereador Fábio Araújo (MDB), teve a presença de representantes da Secretaria Municipal de Assistência Social e do Ministério Público do Acre (MPAC). Mas foram as falas dos moradores que deram o tom mais contundente da manhã.

O presidente da associação de moradores, Wellington Pinheiro, que vive no Papoco há 38 anos, destacou que o bairro não é o retrato da criminalidade, mas de uma comunidade com laços históricos e afetivos. “Ali tem avó, tem pai, tem mãe, tem filho. Eu nasci ali, perdi minha mãe ali, fui criado ali. Não é terra de drogado, é terra de gente trabalhadora. A Prefeitura precisa ir lá, tomar café com o povo, ver de perto a realidade, e não julgar pelo que dizem na internet”, afirmou.

Outros moradores também lembraram o passado de promessas não cumpridas e a ausência de políticas públicas na região. Segundo eles, a última intervenção efetiva da Prefeitura foi a construção de duas escadarias e a retirada de um lixão em 2022. Desde então, a comunidade afirma não ter recebido novos investimentos.

A moradora Gleiciane da Silva, que vive há 14 anos na comunidade, abriu sua fala pedindo que o poder público “olhe com outros olhos” para o bairro. “A gente não quer sair. O que queremos é estrutura. Moro ali desde os meus bisavós, e nunca tivemos uma área de lazer, um posto de saúde ou uma escola funcionando. Só lembram da gente em tempo de eleição. Depois, o Papoco morre e dizem que só tem bandido. Mas lá tem gente de bem, tem cultura, tem trabalho e tem história”, afirmou.

Ao lado dela, o morador Eduardo Ferreira, administrador e mestre de capoeira, criticou a forma como foi feito o levantamento socioeconômico pela Prefeitura. “Quando a equipe desce lá, qualquer cadastro o povo quer fazer, porque acredita que é pra ajudar. Mas depois descobrimos que estavam nos registrando para remoção. 95% da comunidade não quer sair. Quer dignidade, não despejo”, disse.

Eduardo relatou ainda que mantém um projeto social com jovens e crianças da região, mas precisa levar o grupo para treinar em escolas no centro da cidade. “O prefeito prometeu escadas, trapiches e um centro cultural na antiga escola Madre Elisandra Olho, mas nada foi feito. O espaço está abandonado e as crianças brincam no meio da rua”, lamentou.

Compartilhar