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O mapa nacional do Cadastro Ambiental Rural (CAR) coloca o Acre entre os estados com menor número de imóveis inscritos, um dado que, isoladamente, pode induzir a leituras apressadas. A realidade por trás dos números é outra: no estado, predominam propriedades extensas, com baixa fragmentação fundiária, herança de processos históricos de ocupação ligados a seringais, projetos de colonização, assentamentos e áreas extrativistas. Menos cadastros, portanto, não significam menos terra — significam imóveis maiores.
O problema central não está na inscrição, mas no que vem depois. No Acre, grande parte das áreas cadastradas depende de regularização fundiária, titulação definitiva ou destinação formal de terras públicas. O CAR, por si só, não resolve essas pendências. Trata-se de um cadastro ambiental autodeclaratório, que não comprova posse nem propriedade e que precisa ser analisado e validado pelos órgãos competentes para produzir efeitos práticos.
É nessa etapa que o sistema emperra. Muitos cadastros seguem sem análise técnica, seja por falta de estrutura do Estado, seja pela complexidade de cruzar dados fundiários, imagens de satélite e sobreposições com terras indígenas, unidades de conservação e outras áreas protegidas. O resultado é um limbo administrativo: o produtor tem o cadastro feito, mas não obtém validação nem segurança jurídica.
O impacto é direto na economia rural. Sem o CAR validado, o acesso ao crédito rural fica limitado, investimentos são adiados e projetos produtivos perdem previsibilidade. A situação afeta especialmente a agricultura familiar e pequenos e médios produtores, além de cadeias estratégicas para o estado, como pecuária, café, mandioca e fruticultura.
O mapa do CAR, ao evidenciar o baixo número de imóveis no Acre, acaba revelando um problema estrutural mais profundo: a lentidão histórica da regularização fundiária em um território marcado por grandes áreas e alta complexidade ambiental. Sem enfrentar esse nó, o cadastro permanece como instrumento incompleto — um retrato estatístico que não se traduz, ainda, em segurança jurídica nem em desenvolvimento sustentável no campo.
