ÂNCORA
“Enquanto uns escrevem seus nomes em pontes, outros constroem caminhos invisíveis para o povo passar.”
Por dentro da Câmara Municipal de Rio Branco, quase nada ressoa além do ruído previsível. Proliferam projetos genéricos, discursos empilhados como papéis velhos e soluções de fachada para problemas que exigem raízes. Mas há, entre as fileiras abafadas da institucionalidade local, uma voz que desafia o coro: André Kamai (PT), vereador de primeiro mandato e último resquício de um tempo em que a política tentava, ao menos, parecer mais séria.
Aos 43 anos, Kamai chegou ao parlamento com o que chama de “o maior mandato do PT no Acre”. Não em número de votos — mas em simbolismo. Depois de duas décadas nos bastidores, assessorando lideranças do partido em tempos de plenitude, ele assume hoje o lugar de quem tenta reconstruir algo com as próprias mãos e em meio aos escombros.
“Passei 20 anos ajudando os outros a governar. Agora sou eu quem está aqui. E eu não posso enganar o povo”, resume.
Para Kamai, fazer parte do Partido dos Trabalhadores em 2025 é remar contra uma corrente de cinismo institucional. “Quando você tenta aprofundar um debate na Câmara, parece que está falando uma língua morta. Tudo virou espetáculo ou paliativo. A política foi esvaziada como espaço de formulação.”
Esse esvaziamento, ele diz, gera aberrações legislativas. Como leis recicladas, com textos idênticos e finalidades simbólicas. “Tem projeto que só muda a ementa. Já vi mais de dez só sobre autismo. E não é que o tema não seja importante — é que não se preocupam nem em saber o que já existe”, pontua.
Ele dá um exemplo prático: o debate sobre transporte público. Enquanto parte dos vereadores se limitava a discutir um empréstimo para compra de ônibus, Kamai insistia em ir além. “O sistema está colapsado. Administrativamente, juridicamente, materialmente. Comprar ônibus não resolve se a estrutura está apodrecida.” Segundo ele, premiar concessionárias falidas com recursos públicos sem exigir contrapartida é incentivar a ineficiência. “Isso não é política pública, é cortina de fumaça.”
Kamai denuncia ainda o desmonte de ferramentas de transparência. O portal criado para monitoramento do transporte público, legado da gestão de Marcos Alexandre, está desatualizado desde 2020. “O prefeito prometeu abrir a caixa-preta, mas criou uma nova. Hoje ninguém sabe o que acontece com o sistema.”
Diante dessa ausência de debate qualificado, Kamai tem recorrido à sociedade civil. Cita com orgulho a audiência pública realizada na Transacreana, com participação de sindicatos, associações e até do presidente do Tribunal de Contas. “É com quem quer debater de verdade que a gente constrói saídas.”
A política de verdade
É nesse vácuo que Kamai propôs uma das iniciativas mais relevantes do seu mandato: a criação da Central Municipal de Intérpretes de Libras. Para ele, mais do que um gesto de inclusão, é um acerto de contas com uma dívida social histórica. “Hoje, a comunidade surda depende da solidariedade dos amigos para conseguir se comunicar com o Estado. Isso não é caridade, é abandono. O poder público tem que assumir esse papel.”
O projeto prevê a criação de uma central, com sistema de agendamento remoto, remuneração por serviço e, futuramente, concursos públicos para profissionais fixos. “O surdo agenda, o intérprete aceita, e a prefeitura paga. Não custa nada criar a base legal para isso”, disse. E acrescenta: “mas por que não contratar logo os intérpretes como servidores? Porque o ideal não pode atrasar o possível. Enquanto não houver concurso, a prefeitura precisa garantir que o direito à comunicação seja respeitado.”
Para o parlamentar, a lógica do mandato é essa: poucos projetos, mas com impacto duradouro. Nada de legislar por likes. “Tem gente que apresenta projeto só pra dizer que é produtivo. Isso é enganar o povo. Eu prefiro apresentar pouco, mas com profundidade.”
Um mandato conectado com a vida cotidiana
Kamai recorre a uma frase de Marina Silva para explicar o que entende por mandato popular. “Você não está lá para substituir ninguém. Está para representar.” Isso, para ele, só acontece se o político estiver onde o povo está.
“Eu fui ao seminário sobre pobreza menstrual organizado por mulheres da Ufac. Eu não vivo isso no meu corpo, mas isso me atravessa. Se eu não entendo, como vou propor política pública?” A escuta, diz ele, é sua principal ferramenta de formulação política. E isso não se limita ao campo progressista tradicional. “Eu ouço mães solo, evangélicos, lideranças LGBTQIA+, indígenas, estudantes periféricos. É com essa base que um mandato ganha sentido.”
Kamai critica o descolamento da política institucional: “Hoje muitos parlamentares se auto representam. São eleitos e passam a defender só seus próprios interesses ou os dos seus financiadores. Isso mata a democracia.”
É por isso que seu mandato atua nas franjas da cidade: zona rural, periferias, áreas negligenciadas. “Não é só sobre identidade. É sobre fazer com que o Estado alcance quem sempre ficou de fora. A política tem que ser ponte, não vitrine.”
Kamai também cobra do Executivo a escuta que falta. Relata que, na mesma audiência pública da Transacreana, o presidente do TCE ficou até o fim ouvindo os moradores. “O prefeito deveria fazer o mesmo. Os deputados, os vereadores, todos.”
A cidade que parou
Na leitura de Kamai, a gestão Bocalom virou um laboratório do improviso. “Faltam projeto, planejamento e sobram vaidade e ignorância técnica. É uma administração que gira em torno das ideias de um homem só, que acha que sabe tudo e não escuta ninguém.”
Ele cita casos escandalosos, como a perda de quase R$ 7 milhões para a construção de uma UBS por falha burocrática da prefeitura. Ou o abandono da promessa das mil casas de madeira. “A engenharia construiu uma ponte sobre o Amazonas. Mas a prefeitura não consegue levantar uma casa de madeira. É ridículo.”
Para ele, a política de vaidade substituiu a gestão pública real. “A ‘vaca mecânica’ é o exemplo perfeito: ao invés de comprar leite da bacia leiteira local, o prefeito cria uma fábrica de leite de soja que concorre com quem já está na luta. É uma política contra o próprio povo.”
De onde vem a esperança
Kamai não se isenta. Reconhece que o ciclo petista se exauriu em 2018 e que houve erros. “A gente insistiu demais em prolongar um ciclo que o povo já tinha encerrado. O povo foi generoso com a gente por 20 anos. E quando decidiu virar a página, a gente não soube virar junto.”
Hoje, sua proposta é a reconstrução de uma nova esperança. “Não cabe cobrar gratidão. O que a gente tem que fazer agora é apresentar um novo caminho. Com inteligência, com verdade, com política pública que faz sentido.”
É dessa convicção que nasce a defesa por uma política conectada com os territórios. Kamai atua com frequência na zona rural, dialoga com sindicatos, mulheres, juventude, LGBTQIA+, indígenas e ribeirinhos. “Não é só por identidade. É porque, se a gente não entende todo mundo, a política não alcança ninguém.”
Como dialogar com a nova geração
Kamai entende que a juventude atual exige novas formas de comunicação e projeto. “Estamos na era da inteligência artificial, da velocidade. Se a gente não souber se comunicar com clareza, propósito e verdade, vamos perder essa geração.”
Ele defende que não se trata de repetir fórmulas do passado, mas de se apoiar em conquistas anteriores para construir algo novo. “O povo não nos deve gratidão. Fomos nós que pedimos o voto. O que devemos agora é devolver essa confiança com um novo ciclo, com novas ideias.”
Para ele, o novo ciclo precisa ser inclusivo, sustentável e ousado. “Não é sobre nostalgia. É sobre responsabilidade com o agora. Precisamos dizer à juventude que é possível fazer política com decência, que vale a pena acreditar de novo.”
Kamai reconhece que parte dos erros do campo progressista foi insistir em reeditar o passado ao invés de ler os sinais do presente. “O povo virou a página e a gente tentou continuar escrevendo nela.”
COP30, desmatamento e a vergonha amazônica — o que o Acre representa hoje no cenário climático internacional
Com a aproximação da COP30, Kamai alerta para o risco de o Acre comparecer à conferência internacional como símbolo do retrocesso ambiental. “Durante muitos anos fomos referência. Hoje, somos a vergonha da Amazônia.”
Ele lembra que, enquanto o Brasil reduziu o desmatamento em todos os biomas, o Acre aumentou em quase 30%. “Os números são públicos. O governo estadual não tem política ambiental. A floresta está sendo destruída sob silêncio institucional.”
Para Kamai, o atual governo desmontou programas como o ProAcre, abandonou unidades de conservação e paralisou a economia de base florestal. “A gente exportava milhões com castanha, borracha, madeira legal, piscicultura. Hoje, essas cadeias estão à míngua.”
Ele denuncia ainda que os recursos internacionais do Fundo Amazônia e outros acordos não chegam a quem precisa. “Não adianta trazer dinheiro para a floresta se ele fica parado em gabinete ou some em consultoria. O povo da floresta tem que ser o primeiro a receber.”
Kamai conclui: “o governo vai chegar à COP30 sem proposta, sem diagnóstico, sem vergonha. Mas a sociedade civil vai estar lá. E vai denunciar o que o Acre oficial finge não ver.”
Ferrovia Interoceânica – integração, riscos e o desafio do desenvolvimento com responsabilidade
Kamai também tem posição clara sobre a construção da Ferrovia Interoceânica. É a favor — mas com responsabilidade. “É um projeto estratégico. Mas não pode passar por cima de terras indígenas nem reservas como a Serra do Divisor.”
Ele defende uma alternativa técnica: que a ferrovia entre no Acre pela BR-317, aproveitando estrutura já existente e evitando impacto ambiental severo. “Não é não fazer. É fazer direito. Com planejamento e escuta.”
Kamai critica a paralisia do governo acreano em relação ao Porto de Chancay, no Peru. “Estamos vendo o maior projeto logístico do Pacífico avançar, e o Acre está parado. Não temos porto seco, nem alfândega funcionando, nem a BR-317 duplicada. É como se o futuro não fosse com a gente.”
Para ele, não se trata de escolher entre floresta e progresso. “É possível crescer com justiça. É possível integrar respeitando os povos. O que não dá é pra repetir a história de violação travestida de desenvolvimento.”
Projeto de futuro: liderança, memória e responsabilidade coletiva
Kamai não nega o que está no ar: seu nome já circula como possível candidato ao governo do Acre em 2026. Mas ele é cauteloso. “Eu não me construí sozinho. O PT investiu em mim. Eu tenho que estar preparado. Mas isso não é sobre mim. É sobre construir com muita gente.”
O vereador defende que o campo progressista precisa de um projeto coletivo, com uma chapa robusta que vá além de intenções pontuais: “Precisamos de candidatos ao governo, Senado, estaduais e federais. E precisamos fazer isso com responsabilidade, sem repetir vícios do passado.”
Kamai antecipa uma posição clara: “Nosso nome para o Senado é o Jorge Viana. Ele é hoje um dos brasileiros mais relevantes no cenário internacional. Seria um desperdício ignorar isso.”
Ao analisar o cenário eleitoral que se forma no estado, ele é duro: “Alain, Mailza, Nicolau, Bocalom. São todos do mesmo grupo. A única diferença vai ser quem é mais amigo do Bolsonaro ou quem grita mais alto na internet. É a eleição das selfies com obras paradas.”
Mas ele insiste: a política pode ser outra coisa. “Pode ser projeto. Pode ser escuta. Pode ser compromisso. Pode ser esperança.”
Ao fim da conversa, depois de mais de uma hora e vinte minutos, Kamai resume seu sentimento com uma frase que talvez diga tudo: “desafiado, mas animado com o desafio.”











