Amazônia industrializa o café
Em pleno coração da floresta, no município mais ocidental do Brasil, o Acre inaugurou no sábado, 28, o maior complexo industrial de café da Região Norte. Localizado no Ramal do Café, em Mâncio Lima, o empreendimento marca uma virada histórica na cadeia produtiva do Juruá e simboliza uma nova etapa da política de industrialização da Amazônia profunda.

Com investimento superior a R$ 10 milhões — fruto de uma articulação entre a Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI), o governo federal e a cooperativa Coopercafé — o complexo já beneficia diretamente cerca de 180 cooperados, além de agricultores independentes e famílias de agricultores familiares. Em apenas dois meses de testes operacionais, a estrutura elevou em 44,5% a arrecadação municipal e gerou 15,5% a mais em empregos formais, segundo dados da Federação das Indústrias do Ceará.

“Aqui é o dinheiro público bem aplicado, chegando no lugar certo, para as pessoas certas”, afirmou a diretora da ABDI, Perpétua Almeida, durante a cerimônia de inauguração.
Uma nova lógica para o café da Amazônia
No entorno do complexo, mais de R$ 5 milhões de pés de café estão plantados entre o Vale do Juruá e parte do Amazonas. O parque fabril — com 1.640 m² de área construída e funcionamento 100% solar — tem capacidade para beneficiar até 21 mil sacas por ano, e já operou 7 mil sacas em apenas 66 dias.

Além do beneficiamento tradicional, o parque realiza também o rebeneficiamento, com tecnologia de ponta para padronização por tamanho e densidade. Isso permite separar os melhores lotes e transformá-los em cafés especiais, com maior valor agregado e novas possibilidades de exportação.
“O que temos aqui é um modelo para o Brasil: energia limpa, reuso da água da chuva, empoderamento da agricultura familiar, uso de áreas já degradadas e protagonismo das mulheres”, detalhou Perpétua, destacando que esta é a primeira vez que a ABDI atua diretamente no Acre.

Renda, governança e raiz local
Segundo a ABDI, o projeto gerou um aumento médio de 31,4% na renda dos agricultores, saltando de R$ 2.409,71 para R$ 3.166,00. Os dados são resultado do monitoramento de impacto contratado pela ABDI.
Diferente de experiências fracassadas como o antigo polo da piscicultura, o novo modelo prevê gestão direta pelas cooperativas, garantindo autonomia e continuidade. “Esse complexo nasce com raízes no chão, com envolvimento da comunidade. Não é uma obra de cima para baixo”, afirmou Perpétua.

De acordo com Jonas Lima, presidente da Coopercafé, a indústria está pronta para colocar nosso café em qualquer parte do mundo”.
Esperança em forma de semente
Para o prefeito de Mâncio Lima, Zé Luís, o complexo representa mais do que infraestrutura: é esperança social e econômica. “Estamos falando de um novo momento para a agricultura familiar e para o nosso povo trabalhador. Essa é a transformação que a gente esperava”, disse.
A expansão já está em curso. A segunda fase do projeto será implantada no Baixo Acre, com a Cooperacre — que reúne cerca de três mil famílias cooperadas. A estimativa é que a nova unidade tenha potencial similar ao do Juruá.

Em um país onde tantas vezes as políticas públicas falham ao chegar na ponta, o exemplo de Mâncio Lima mostra que é possível industrializar respeitando a floresta, a cultura local e os direitos de quem planta. Um projeto onde o café não é apenas um grão — mas um símbolo de futuro.
