‘Brutal Paraíso’, de Luísa Sonza, aposta no excesso e entrega audição cansativa
Título: “Brutal Paraíso”
Artista: Luísa Sonza
Nota: 5,5/10
Como a própria capa indica, o novo álbum de Luísa Sonza é tudo, menos contido. Ao longo de mais de uma hora de duração (com 23 faixas), “Brutal Paraíso” é frenético, oposto à cantora polida de “Bossa Sempre Nova” (também deste ano).
Vale dizer que discos gigantes não são raros. Nomes como Drake e Taylor Swift já apostaram em álbuns com muitas faixas, porque ajuda no volume de streams. O próprio “Escândalo Íntimo”, de Luísa, teve 24 músicas, mas foi lançado com algumas “bloqueadas”.
Já “Brutal Paraíso” vem com todas liberadas… e é quase três álbuns em um. Uma parte nasce da bossa nova (herança de seu disco anterior) e mergulha em um pop oitentista, carregado de sintetizadores e batidas dançantes com um quê de The Weeknd.
Nesse clima noturno, há citações de outras canções brasileiras: “Loira Gelada”, ela resgata o clássico do RPM. Já “E Agora?” tem uma interpolação de “Você Não Me Ensinou a Te Esquecer”, de Fernando Mendes (eternizada por Caetano Veloso).
Outra fração migra para o funk, o trap e até o reggaeton, com participações de MC Morena, MC Meno K, MC Paiva, a porto-riquenha Young Miko e o colombiano Sebastian Yatra.
Estão aí os hits em potencial, como “Tropical Paradise”. Nessa parte, as produções exploram diferentes BPMs e aparece a Luísa explícita, que canta sacanagem sem timidez.
Em uma terceira parte, entra em um pop rock datado, com composições dramáticas entre o emo e o louvor.
Luísa Sonza na capa de ‘Brutal Paraíso’, quinto álbum de estúdio
Reprodução
Essa mistura também aparece nas letras: ela vai do “proibidão” e sensual (“me chama de cachorra”, em “No Es Lo Mío”) ao rebuscado (“Impiedoso sofrimento, silenciosa dor”), entre português, inglês e espanhol.
Se parece um excesso de ideias, é porque é mesmo. “Brutal Paraíso” é um álbum ambicioso que tenta abraçar o mundo e acaba cansando. São diferentes ritmos, participações e até idiomas, às vezes em uma mesma faixa. A cantora ainda usa e abusa do “belting”, aquele estilo de canto agudo, cortante, que cansa o ouvido quando aparece com frequência.
A sensação é de que Luísa quer provar que sabe fazer de tudo. Ela canta em três línguas; faz bossinhas românticas; ainda tem funk para tocar em festas; ela também conhece clássicos da música brasileira… e tem mais novas “Penhasco” no repertório.
Mas esse desejo de se mostrar versátil acaba se voltando contra ela. Porque, claro, apostar em sons “brutais” e ecléticos faz parte e até rende alguns bons momentos nesse álbum.
Só que para um disco de 23 faixas funcionar, a edição é fundamental. No conjunto, que não abre mão nem de quantidade de músicas nem de recursos sonoros, o ouvinte sai fatigado. E as músicas que realmente brilham acabam soterradas por outras que parecem estar ali só para fazer volume.
Luísa Sonza em foto promocional do disco ‘Brutal Paraíso’
Divulgação
Um exemplo é a faixa-título, última do disco. A música é uma carta à sobrinha de Luísa: ela fala sobre ser uma mulher, sobre amar e se perdoar. “Essa é a história dos meus 20 e poucos anos”, canta.
É a música mais honesta do álbum e, por isso, merecia espaço para brilhar. Mas depois de um disco inchado, a canção acaba sobrando… e não ajuda que ela tenha 8 minutos de duração.
Isso porque, segundo a própria cantora, essas são somente as “primeiras 23 faixas” e vêm mais por aí. Será que precisamos de tantas músicas assim?
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É curioso pensar nisso logo sobre Luísa Sonza, que se consolidou como uma artista pop de álbuns. Ela sempre demonstrou interesse em caprichar nas suas “eras”, com estética e conceito definidos.
Mas para quem pensa tanto no álbum como um conjunto fechadinho, ficou de fora uma questão básica: um bom disco é aquele que você quer ouvir do início ao fim.
Na coletiva de lançamento, a cantora afirmou que não pensou na recepção do público, só na “entrega” que queria fazer. Deu pra ver.
