“Cadê as provas?
Enquanto o Estado silencia e as instituições imputam culpa, uma mulher rompe o medo e o cansaço para gritar por justiça. O nome dela é Rose Ribeiro. E sua fala representa uma classe inteira prestes a desabar.
Do outro lado do Brasil que não aparece nas vitrines da democracia, onde a floresta se mistura ao barro da estrada interditada e ao sangue de sonhos partidos, uma mulher não se cala: Rose Ribeiro. Ela é professora, é filha de Xapuri, é terra de resistência. Mas hoje, é mais do que isso: é uma mulher em luto, não só pelo que foi perdido por seus conhecidos, mas pela dignidade que, segundo ela, foi saqueada em silêncio e sem mandado.
“Alguém me acorde. Eu estou num pesadelo”, ela diz ao comentar sobre as notícias lidas nos veículos de Comunicação que relatam a fuga do gado apreendido pelo ICMBio. A nota oficial divulgada afirma que houve “roubo” e “invasão ao frigorífico”.
“A responsabilidade desse gado não estava com a gente. Estava com as instituições”, ela afirma. “Mas tudo o que é ruim jogam nas nossas costas”, disse ao lamentar as acusações de que foram os produtores que furtaram o gado.
Rose conhece as palavras. É professora. Mas também sabe o peso delas quando são usadas para distorcer. Sabe o que acontece quando as imagens das câmeras “falham”, quando não há provas, mas há acusações. Quando o poder se articula, quando a grande imprensa se cala, e o produtor rural vira réu de um processo sem defesa.
“Dizem que fomos nós. Que invadimos, que soltamos o gado. Mas cadê as provas? Cadê as imagens? As câmeras do frigorífico falharam justo agora? Falar, qualquer um fala. Mas acusar sem mostrar é covardia. E nós, produtores, estamos cansados de pagar por crimes que não cometemos.”
Não fala por vândalos
No vídeo, Rose manda ainda um recado: não fala por vândalos. Fala por trabalhadores. Por pessoas honestosa. “Falo por quem sempre acreditou que fazer o certo seria suficiente para garantir o pão, o teto, a paz. Meu pai me ensinou que se eu fosse honesta, eu não seria punida. Hoje eu vejo que o trabalhador é penalizado. É sentenciado à morte.”
E acrescenta: “é justo que as carnes destinadas aos alunos venham de animais exaustos, desnutridos, abatidos às pressas? que tipo de política pública é essa, onde a punição vem antes do processo? não é só gado sendo abatido. São histórias. São décadas de suor, cercas feitas à unha, filhos criados na lida.
E, por fim, Rose pede respeito. O mínimo. O essencial. O que tem sido negado a ela e a tantos outros, como destacou. “Nos respeite”, diz, com a voz carregada de tudo o que não cabe mais no peito: indignação, cansaço, desamparo.
