Rio Branco, Acre - quarta-feira, 13 maio, 2026

LANÇADOS AO RITMO DO ALGORITMO

(…) Nada lhe faltava. Na hora da fome tecia um lindo peixe… E eis que o peixe estava na mesa, pronto para ser comido. Se sede vinha, suave era a lã cor de leite que entremeava o tapete. E à noite, depois de lançar seu fio de escuridão, dormia tranquila. Tecer era tudo o que fazia. Tecer era tudo o que queria fazer… (A Moça Tecelã, Marina Colassanti, 1982).

Década de 80 já tinha o algoritmo, sabia?! É o que faz parecer a Marina. Não sei se leitor de pensamentos e decodificador de intenções. Mas tinha! A personagem da moça tecelã vivia ao tear e, tudo o que tecia se fazia real. Ela desenhava o fio do tempo e dominava as linhas da vida. Pensava. Tecia. Acontecia. Magia?! Foi na terça, ao abastecer pela manhã. Eu sei e, também já me alertaram da minha dificuldade em dizer NÃO! Mas velhinhos e crianças me derrubam. Já tinha me desvencilhado algumas vezes do senhorzinho que vendia facas lá pelo posto. Na terça eu devia tá mais emotivo, e ele, com mais sorte. Mais uma faca pra cozinha, só que, essa, comprada numa terça qualquer, num posto de rodovia. O algoritmo viu. Ouviu. Me perseguiu. No computador: facas nos anúncios; nas redes, o mesmo. Como se eu fosse comprar mais uma pra coleção no dia seguinte, num posto mais à frente, com outro senhor simpático, sei lá. O algoritmo faz isso: te vigia, te controla, te faz repetir padrões de consumo, por vezes, desnecessários. Num dia, você compra uma faca e, no outro, acorda dono de uma cutelaria, vivendo sempre algo no RITMO DO ALGORITMO. Mas sabe, eu queria mesmo era viver no ritmo da vida de verdade, daquela sem impulsionamento, sem tráfego pago, só a de verdade, tal qual a moça tecelã, a que você quem controla, quem dita, tece fio a fio, dia a dia… Não era terça, foi sábado e, não foi o algoritmo dessa vez, foi a vida mesmo, que, depois de um bom tempo, me levou a uma visita aos sobrinhos mais bem comportados dentre os sete que tenho. Falei no grupo: “Aguentei 32 minutos!”. Foi o suficiente pra umas seis corridas de cavalinho, quatro de tum-tum, alguns arranhões e umas três mágicas. Saí cansado. Exausto. Surdo. Arranhado e sujo. Mas feliz! Naquela meia hora, a vida aconteceu no MEU RITMO, ou no deles, melhor; mas não do algoritmo, não dessa vez. O engraçado é que, após isso, não me vieram anúncios impulsionados de: sobrinhos, família, vida, tum-tum, cavalinho, sorriso, mágicas… Não! Só de faca. Mas também nem espero. Até porque, a vida, em sua magia, flui de verdade mesmo quando é a gente quem tá com os pés no pedal do silencioso e cadenciado tear, com as mãos no controle total da lançadeira, tecendo com carinho e cuidado cada precioso fio que nos resta de vida e, não no ritmo da máquina desenfreada do consumo, presos a fios de lã grossa, lançados a esmo, de posto em posto, costurados, tricotados e bordados no insano e desmedido RITMO DO ALGORITMO.

Compartilhar