João Bosco completa 80 anos nesta segunda-feira, 13 de julho
Victor Correa / Divulgação
♫ ANÁLISE
♬ João Bosco chega hoje aos 80 anos como um baobá majestoso e solitário alicerçado no solo fértil em que brota a música rotulada como MPB.
Mineiro de Ponte Nova (MG), nascido em 13 de julho de 1946, João Bosco de Freitas Mucci vira octogenário com o prestígio e a musicalidade nas alturas. O amigo violão, tradutor da musicalidade assombrosa do artista, segue ao lado de Bosco. É dentro da casca desse violão que vive a cabeça musicalmente fervilhante de um cantor, compositor e instrumentista genial, dono de universo particular, inalcançável para quem está de fora.
Do violão, Bosco extrapola a nação onde a cuíca ronca de fome e vislumbra um mundo que, das Geraes, o transporta para o som das Arábias – não fosse ele filho de pai libanês – com escalas permanentes no Rio de Janeiro (RJ) do samba e da bossa nova (que também é samba…), no Caribe dos boleros das paixões falsamente brilhantes e na África que pariu a música do mundo e, por tabela, a cantora fluminense Clementina de Jesus (1901 – 1987).
Tudo isso está no cancioneiro de João Bosco, amalgamado com a tal influência do jazz, este mais perceptível nos improvisos dos shows e sobretudo nos álbuns gravados com orquestras europeias, caso do recente “Horda” (2026), lançado em 3 de julho.
Os caminhos trilhados por João Bosco foram inusitados como a arquitetura de “Agnus sei”, música que apresentou o artista ao Brasil em 1972. Antes, na pré-história, Bosco firmara em 1967 na Ouro Preto (MG) natal uma parceria com o então já estabelecido Vinicius de Moraes (1913 – 1980), poeta da bossa que também impactou Bosco em 1958 no violão revolucionário de outro João.
No entanto, os sambas de juventude compostos por Bosco e letrados por Vinicius resistem como títulos meramente curiosos de cancioneiro que ganhou vulto a partir do encontro definidor do mineiro com o bardo carioca Aldir Blanc (2 de setembro de 1946 – 4 de maio de 2020), letrista de sintaxe singular na MPB que também se tornaria octogenário em 2026 se não tivesse saído de cena há seis anos.
Com os versos precisos e surpreendentes de Aldir, a música de Bosco se tornou a crônica aguçada das mazelas sociais do Brasil urbano dos anos 1970. Aldir pôs João de frente pro crime cometido nas esquinas, mas sem perder a ternura diante da dureza da vida da legião de deserdados dos subúrbios do país retratado pela dupla a partir da janela para o cotidiano carioca.
Cantora antenada, Elis Regina (1945 – 1982) logo captou os sinais da inventividade da parceria e se tornou a intérprete da dupla sem anular o canto de João Bosco, enfim abraçado pelo povo a partir do segundo álbum, “Caça à raposa” (1975), ao qual se seguiram petardos como os álbuns “Galos de briga” (1976), “Tiro de misericórdia” (1977), “Linha de passe” (1980), “Bandalhismo” (1980), “Essa é a sua vida” (1981) e “Comissão de frente” (1982), todos calcados na simbiose de Bosco com o bardo.
A parceria com Aldir Blanc se diluiu em meados dos anos 1980. Mais tarde, após Bosco firmar parcerias ocasionais com José Carlos Capinan (letrista de “Papel machê”, canção-hit de 1984 que teve como inspiração as esculturas de Ângela Bosco, musa da música de Bosco), Waly Salomão (1943 – 2003) e Antonio Cicero (1945 – 2024), o compositor encontrou no filho Francisco Bosco o parceiro com quem se afinou e expandiu cancioneiro que, como toda a MPB, foi escanteada para nichos do mercado, perdendo a popularidade de outrora por manter requinte que reduz a quantidade de ouvintes em nação hoje mais refratária a qualquer música que recuse a estrutura harmonicamente simplista do balaio pop do mainstream.
Com Francisco Bosco, João construiu obra que, em curto tempo, alcançou a mesma estatura poética da parceria de Aldir Blanc, mas sem o alcance das músicas dos anos 1970 e 1980 pela referidas questões mercadológicas.
Artista que sabe interagir com uma orquestra, mas que se basta ao violão, instrumento que no toque dele adquire o status de uma orquestra, João Bosco segue firme como o baobá solitário no terreno arenoso da música brasileira do século XXI, sempre guiado pelo violão por vezes percussivo – instrumento que lhe dá meios para exercitar e expor a sofisticação de uma música feita em zona sem fronteiras – em sintonia com o canto onomatopaico, o gagabirô que ecoa livre como um jazz.
No corrente século XXI, João Bosco tem oferecido pérolas para poucos, mas poucos que também são muitos em uma nação de dimensão continental como o Brasil, terra fértil que sustenta esse nobre baobá isolado (mas em comunhão com amigos novos e antigos, como os reunidos no álbum de duetos que lançará em duas partes ao longo deste semestre). Um baobá que se alimenta da nutritiva casca de um violão que lhe abre as portas da percepção para a música do mundo.
