Influenciadoras rurais se tornam a linha de frente na defesa de produtores atingidos pela Operação Suçuarana

A roça fala por elas

“Roça não é moda, é estilo de vida.” A frase de Mara do Acre (@mara.do.acre), dita enquanto segurava o celular em uma live no meio da BR-317, não foi apenas um slogan ruralista. Foi um grito de identidade. Um aviso de que o campo não será mais retratado sem rosto, sem mulher, sem voz.

Na manhã de sexta-feira, 13, dezenas de produtores rurais interditaram a rodovia BR-317 no entroncamento da cidade de Xapuri (AC), em resposta direta à Operação Suçuarana, conduzida pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). A ação tem resultado em embargos e ordens de despejo em propriedades localizadas dentro da Reserva Extrativista Chico Mendes, território tradicionalmente habitado por seringueiros, agricultores familiares e pecuaristas de pequeno porte.

Mas foi das redes sociais que veio a verdadeira força do protesto. Três mulheres — Kelma Boiadeira (@kelma_boiadeira), Mara do Acre (@mara.do.acre) e Endellyana Santiago (@endellyanasanrtiago) — transformaram o protesto em trincheira digital, rompendo o silêncio que costuma encobrir o drama das populações rurais. Com celulares nas mãos e palavras firmes, mostraram ao Brasil o que é viver na fronteira entre a produção e a criminalização.

“O campo clama por justiça. Não estamos invadindo nada, estamos apenas tentando viver.”
— Kelma Boiadeira, ao vivo durante a interdição

Mulheres do campo, vozes da resistência

Essas três forças femininas São comunicadoras populares com forte ligação com a terra e as famílias que nela vivem. Suas redes sociais não servem apenas para mostrar a lida com o gado ou a laranja colhida no terreiro. Elas denunciam, documentam, mobilizam.

Kelma, que vive na comunidade Maloca — epicentro da operação do ICMBio —, é a narradora da indignação. Com vídeos firmes, palavras cortantes e um olhar que encara a câmera como quem desafia o abandono, ela transformou sua rotina de produtora rural em trincheira de resistência. Kelma não apenas denuncia; ela convoca. Sua fala é o reflexo de quem já chorou calada demais e decidiu que, agora, o Brasil inteiro vai ouvir.

 

 

Mara — que vive em uma comunidade vizinha à área atingida pela operação — é o coração da fala popular. Com seu jeito afetuoso, firme e palavras que abraçam, ela é quem traduz a dor coletiva em linguagem de gente, conectando campo e cidade. Nas lives que transmite com o celular na mão e o rosto suado de indignação, Mara não apenas relata os fatos — ela acolhe, emociona e convoca. Sua presença não é de quem comenta, mas de quem representa.

 

Endellyana Santiago tem sido uma ponte viva entre o campo e a cidade, entre o grito sufocado da roça e o silêncio ensurdecedor das autoridades. Sua atuação nas redes sociais vai além da denúncia — ela representa a coragem de quem transforma indignação em mobilização. Em meio à tensão dos embargos e ao medo dos despejos, é ela quem traduz a urgência do momento em palavras que mobilizam. Endellyana reforça uma verdade que o Acre precisa encarar: são as mulheres quem hoje carregam, com bravura e lucidez, o bastão da resistência rural.

Juntas, elas fizeram mais do que mostrar a interdição: deram nome e rosto a um conflito que há anos é empurrado para baixo do tapete dos centros urbanos.

Mais do que apoio: presença, coragem e voz

Além de Mara, Kelma e Endellyana, outro trio de mulheres chegou à linha de frente da BR-317, e com elas veio mais chão, mais voz e mais coragem. Rose Ribeiro, Mariana Rodrigues e Paty Boiadeira não apareceram por acaso — vieram com propósito, presença e palavra. Elas não pediram espaço: ocuparam com a força de quem entende que resistir é também falar, registrar e se levantar ao lado do povo. Juntas, somam-se às que já estavam, formando uma corrente de mulheres que não apenas vivem do campo — vivem pelo campo.

Rose Ribeiro (@rose_ribeiroxp) virou símbolo da presença firme da mulher rural no protesto. Seus stories e vídeos captam a tensão do bloqueio em tempo real, transmitindo a urgência de quem vive na linha de frente. Câmera nas mãos, ela não apenas registra — ela incita: emociona com quem chora na beira da estrada, reforça com quem resiste. Rose encarna a luta que se faz visível.

Mariana (@rodriguesmari4 ) carrega no tom de voz a firmeza de quem não admite ser empurrada para o esquecimento. Sua atuação vai além da presença física: organiza ideias, dá nome às dores e articula discursos que equilibram emoção e lucidez. Mariana não é só mais uma no protesto — é uma das que sustentam a linha de frente com clareza e liderança.

Entre bois, cercas e resistência, Paty Boiadeira (@paty_a_boiadeira) caminhou ao lado dos manifestantes como quem defende um lar. Sua linguagem é simples, mas direta. Fala de quem vive da terra, de quem sabe o valor do que planta e do que cria. Paty humaniza a luta, aproxima o conflito das pessoas comuns e transforma cada frase em ato de resistência popular.

Terra sob ameaça, vidas sob risco

O ICMBio afirma que atua com base na legislação ambiental para proteger áreas da reserva que estariam sendo desmatadas ilegalmente. Mas produtores locais afirmam que vivem e produzem na região há gerações — muitos com processos de regularização em curso e sem alternativa de deslocamento.

Segundo relatos colhidos nas transmissões ao vivo e em conversas por direct, há pelo menos 60 famílias ameaçadas de despejo, sem aviso prévio e sem alternativa habitacional. Há crianças, idosos, trabalhadores que vivem da agricultura de subsistência, da criação de gado e de atividades agroextrativistas.

“Não é só terra. É onde a gente planta, colhe, cria os filhos. A gente não invade, a gente vive.”
— Mara do Acre, emocionada em uma live com mais de três mil visualizações

A dor do campo, tantas vezes ignorada, explodiu em vídeos com centenas de compartilhamentos, em comentários de apoio e em novos perfis que começaram a relatar casos semelhantes.

No vazio deixado pelo Estado, o povo da floresta se organizou como pôde: com o corpo na estrada, a voz nas redes e a esperança na resistência. O que antes era dor calada, agora se tornou narrativa viva. E quem assistir aos vídeos sem sentir o peso dessa luta talvez nunca tenha conhecido o que é, de fato, viver da terra — e por ela.

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