(…) “Por ser imortal, ele não podia morrer, mas sua ferida era incurável e causava dores eternas”.
Claro que o trecho acima não é sobre a gente, afinal, dores todo mundo tem, mas a imortalidade ainda não é uma realidade que dialoga com a humanidade. A referência é a Quíron: um centauro imortal, sábio e bondoso, mestre de grandes heróis. Conta a mitologia que ele foi atingido por uma flecha envenenada com o sangue da Hidra. Não podendo morrer e nem se livrar da dor, resolveu se dedicar a trabalhos manuais, na esperança de, entre o suor, o tempo e o esquecimento, aliviar o que sentira. Não à toa, Quíron vem do grego kheir (mão) ou “hábil com as mãos”.
“Olha, fui que fiz!”. As aspas não são para o ser mitológico; são pra mim, pra abrir e fechar uma das frases que, vez ou outra, uso pra mostrar alguns trabalhos manuais. Sinceramente, não sei de onde alguns tiram a conclusão mais que precipitada de que não aparento levar jeito pras coisas da vida comum. Pois cá estou eu, pra desmistificar quaisquer estereótipos levianos. Foi na semana passada: larguei o dedo do teclado por uns dias, coloquei umas roupas velhas, fui à loja de ferragens, e, já à caráter da obra, soltei: “Chefe, me vê uma lata de spray dessa tinta aqui…” Era pras grades que, desde sempre ficaram de ser pintadas, mas só fazia seis anos, e incompletos ainda. “Pra já, meu patrão!” Pronto! Criara o roteiro mais que ambientado pra iniciar os trabalhos. Eu só não contava com os quinze minutos de explicação do vendedor sobre o manuseio da lata, os riscos, o rendimento e a necessidade de EPIs… pensei: “Melhor fazer à moda raiz, com rolo, lata de tinta à óleo, sem modinha de spray, com escada, paninho no ombro… “Meu amigo, vou levar a lata!” Jurava que, ao final da tarde, a grade estaria pintada, o chão limpo, meus dedos secos e eu consagrado.
Dois dias e meio! Duas latas. Duas camisas sacrificadas. Asma atacada pelo cheiro da tinta. O chão grudento… Confesso que, no meio de tudo isso, do processo, eu quis abandonar a obra e voltar ao teclado, à tarefa de sempre, pro que eu já conhecia, àquilo que não suja os dedos, não entope o nariz e nem gruda no chão. Mas suportei os quase três dias porque, no final da primeira tarde, lembrei que eu não tava ali pela pintura. Não era pelo vendedor. Não era pelo trabalho. Não era pela grade. Não era pelo Quíron, nem por qualquer outra coisa externa, real ou mitológica, que se toca, se vê, ou se cheira… Afinal, a grade podia, facilmente, aguentar mais seis anos nua, à ferrugem, às intempéries e ao tempo… Mas eu não! Foi quando descobri, entre o calor, a sujeira, o estresse e a dor, que eu tava ali por mim mesmo; e, recorto: (…) “Na esperança de, entre o suor, o tempo e o esquecimento, aliviar o que sentia.”
Já faz uma semana desde a conclusão do serviço. O chão já tá limpo, a grade pintada e meus dedos secos, mas o cheiro da tinta ainda tá aqui. Por mais que o sol tenha cuidado da umidade e o tempo da aparência das grades, que agora não estão mais nuas e nem tão feias, por mais que, por mais que… o vento, vez ou outra, ainda consegue, entre uma brisa e um rajada, trazer o cheiro forte de tinta pra dentro de casa e me fazer lembrar que, mesmo com a grade pronta, seca e protegida, o trabalho, de alguma forma, ainda deve continuar por aqui. Afinal, há coisas na vida da gente que, nem o tempo cura, nem a quentura seca e nem a tinta disfarça as falhas e imperfeições. São coisas que requerem nossa atenção e cuidado pra sempre. E, talvez, até nossa aceitação de que, por mais que a gente se esforce pra se curar enquanto, pinta, corta, reboca, conserta, tritura, martela, aprega, serra e sua… Ainda assim, enquanto a gente labuta, num descuido, desaviso ou descanso exagerado em meio à obra de cura, uma vez ou outra, o vento, que vem de fora, vai soprar forte, e trazer pra dentro o cheiro que ainda nos SUFOCA. Até porque, há sempre brechas entre as grades de nossa vida. E é por elas que o vento passa.

