Gustavo Mioto fala sobre carreira internacional e mesmice da música sertaneja
Há cerca de um ano e meio, Gustavo Mioto esteve no g1 Ouviu e falou sobre a “atual mesmice na música sertaneja”. Na época, o cantor afirmou que o gênero musical não estava caminhando em questão de qualidade.
Meses após o comentário do artista, o sertanejo foi perdendo a dominância das primeiras posições do ranking de músicas mais ouvidas no Spotify. Desde o final de 2025, o gênero predominante no Top 10 é o funk.
Na última semana, Gustavo voltou a falar com o g1 e, questionado sobre a possibilidade de essa mudança no ranking ter relação com a tal mesmice do sertanejo, ele não poupou críticas novamente.
“Eu acho que domínio de ranking é domínio de números. E a gente tem várias possibilidades de como esse domínio pode ser conquistado. Né? Vamos lá”, afirma Gustavo.
“Eu não tenho me interessado mais pelos rankings, porque na frente do palco a gente vê o que é domínio. E os artistas que eu vejo dominando a frente do palco, às vezes não estão dominando os rankings.”
“Para mim, o que me interessa é o quanto de gente tem na frente do palco e o quanto eles estão cantando a música inteira, e não só aquele pedaço dos 15 segundos.”
Mioto ainda afirmou que esse domínio nas plataformas é subjetivo e que não confia nos números. Mas acredita, sim, que a mesmice possa ser um fator contribuinte, já que “você ouve 10 projetos sertanejos atuais, e ouve a mesma coisa nos 10.”
“Eu continuo com a mesma opinião. A gente vive uma mesmice, vive ainda andando de ré dentro do sertanejo. Em 1992, 1995, o Zezé era mais moderno do que a gente é hoje.”
“Temos talvez o gênero mais ouvido e popular do Brasil, e estamos deixando isso ser carne de vaca.”
Show de Gustavo Mioto continuou com chuvarada na Festa do Peão de Americana 2026
Thomaz Marostegan
Carreira internacional é fuga do sertanejo?
Na tentativa de mostrar que existem outras maneiras de trazer novidades para o mercado sertanejo, Mioto está investindo em sua carreira internacional.
Em abril, o cantor lançou a música “Last Goodbye”. E, nesta quarta-feira (8), chega com a “Drunk Side”, que será a música tema da Festa do Peão de Barretos de 2026.
“Eu fico ansioso para ver o que novas pessoas fazem. E quando vejo novas pessoas chegando, geralmente são as mesmas coisas. Acho que existem maneiras de fazer e estou muito ansioso para alguém chegar e fazer diferente. Então, antes de esperar, eu preciso tentar pelo menos mostrar como é que eu faria”, afirma o artista após negar que a aposta na música country seja uma fuga do sertanejo.
O álbum completo ainda não tem data exata para ser lançado. A ideia, é que saia ainda em 2026. Mas Mioto já comemora e diz que receptividade do projeto “foi melhor do que o esperado”.
“Pra ser bem sincero, eu esperava muito pouco, porque a gente sabe que é um brasileiro cantando em outra língua, um sertanejo cantando em inglês. São várias variáveis que impedem de isso andar. Então eu achei que foi muito bem”, diz.
“A gente teve várias críticas americanas positivas. Descobri que um dos críticos do country mais respeitados por lá [Robert K. Oermann, da MusicRow Magazine] elogiou a ‘Last Goodbye’. Falou que vê sinceridade, autenticidade. Então, só por ter recebido esse primeiro feedback, já é um grande sucesso.”
“Quando eu comecei, nem no Brasil eu tive o feedback positivo na minha primeira música”, compara o artista, que iniciou a carreira em 2012 e estourou nacionalmente somente quatro anos depois, com a faixa “Impressionando anjos”.
“Drunk Side” em Barretos
Show de Gustavo Mioto na 5ª noite da Festa do Peão de Americana 2026
Thomaz Marostegan
Gustavo Mioto passou o início do ano em Nashville, nos Estados Unidos, trabalhando nas composições e produções deste primeiro álbum country. Foi lá que nasceu “Drunk Side”.
O artista, que já compôs muitas músicas inspiradas em seus relacionamentos, conta que a inspiração para a nova faixa surgiu com base na vida que ele estava levando na cidade americana, conhecida com o berço do country.
“A gente tava aproveitando muito, conseguimos viver muito a cidade, ir nos bares e tal. E aí, quando a gente chegou para compor lá, o Paul Bailey, que é o outro compositor da música, estava falando sobre as vezes que ele já bebeu e o quanto ele queria vir para o Brasil para conhecer as festas brasileiras que ele ainda não conhece e tal.”
“E aí, alguém soltou na roda: ‘aí você vai conhecer o meu pior lado’.”
Neste momento, Mioto teve a ideia de falar sobre o lado perigoso da pessoa ser o “lado bêbado”.
A música não foi criada pensando em ser trilha da Festa do Peão de Barretos, mas quando ele e seu pai, o empresário Marcos Mioto, levaram a ideia para o evento, ela foi apoiada na mesma hora. O cantor gravou o clipe para a faixa na arena do Parque do Peão.
E, ao falar sobre o rodeio, Gustavo afirma que, mesmo após as constantes mudanças nos gêneros musicais da programação, o fato de um artista se apresentar no evento segue sendo um marco na carreira dos artistas e tem a mesma importância do passado.
Para se ter uma ideia, neste ano, o samba e o pagode bateram recorde de participações do gênero no line-up dos últimos 10 anos do evento. Belo, Alexandre Pires e Pixote são alguns dos representantes.
“A essência de Barretos continua a mesma, continua sendo o maior rodeio da América Latina, um dos maiores do mundo.”
“Um reclamar do outro de estar no evento só enfraquece os festivais. Se você não quiser um festival, você tem que entender as limitações que isso pode trazer. Barretos já passou disso. Barretos é mundo e tem total liberdade de fazer isso. Não perde nada, só tem a somar.”
Ao ser questionado sobre o caminho inverso – de festivais de outros gêneros incluírem o sertanejo na programação –, Mioto se mostra a favor.
“Já falei sobre isso e tomei uma paulada na internet. Mas acho que, do mesmo jeito que alguns artistas de outros gêneros amam tocar nos rodeios ou eventos sertanejos, a gente também gostaria de tocar no inverso.”
“Eu, pelo menos, não tenho problema nem preconceito nenhum com isso. Acharia super massa essa mistura. Mas a gente deixa com os realizadores pensarem.”
E será que a fase country pode fazer Mioto ingressar em festivais que ainda não abriram a porta para o sertanejo?
“Sinceramente não sei, porque a gente não tem precedentes. Então vai ser uma coisa nova. Se acontecer, eu vou achar incrível, a minha intenção sempre foi fazer o sertanejo ser maior e sempre o sertanejo mais longe.”
“Se não acontecer, a gente já sabe que não adianta. E que é só a não vontade de ter o sertanejo lá dentro.”
Gustavo Mioto na Festa do Peão de Americana
Thomaz Marostegan/g1
