“(…) Tratava-se de um castigo para mostrar-lhe que os mortais não têm a liberdade dos deuses…
Aflição! É o sentimento que tenho quando penso na punição recebida por Sísifo diretamente dos deuses: carregar, por toda a eternidade, uma pedra de mármore montanha acima. O pior: nunca conseguir chegar ao topo. A lição? Aprender que os mortais não são deuses. Que o poder não emana de todos e que, nem todo mundo [ninguém] é super-herói. Claro que não tenho a síndrome de Salvador, como é conhecida na psicologia o complexo de interventor das causas perdidas, a esperança dos oprimidos, o despachante de destinos. Não! Mas lá por casa, eu sempre inclinava minha capa heróica do cabide pra salvar as vítimas dos três gatos dos quais sou mordomo. É um trabalho exaustivo. Não tanto quanto empurrar uma pedra morro acima, mas sempre exigiu habilidades altruístas de salvador da causa animal. A cena pitoresca de resgatar os bichinhos das garras afiadas dos felinos se repetiu vez por vez. Já nem sei quanto tempo faz e, confesso que sempre me orgulhara por alguma missão bem-sucedida. Mas chegou domingo, o último domingo. Acordei, como de costume, bem cedo, o orvalho ainda caía, típico nessa época de prenúncio da chegada do verão amazônico. Fui terminar de despertar com a vista das grades que guardam a paisagem da mata lá de trás. E, enquanto ainda coçava os olhos, o gato já acossava um passarinho. Protocolo de resgate animal acionado. Ainda peguei a chave na intenção de abrir o portão e salvar o animalzinho dos dentes calcificados do meu gatinho mais velho. Já ia metendo a mão no cabide pra apanhar a capa de herói quando, pela primeira vez em alguns anos, fui mordido pelo pensamento: “Deixa a natureza seguir seu fluxo!”. Soltei a chave. Larguei a mão do cabide. Fechei a porta e me retirei. Não quis ficar pra presenciar a natureza seguir esse tal fluxo dela. Mas segui o que senti. Meio confuso, pesaroso, mas segui. Naquela manhã, eu não fui super-herói de ninguém. Confesso que não garanto de, na próxima vez que o protocolo de resgate for ativado, eu não vista minha capa, mas, domingo passado não, não no último domingo. Ainda não me arrependi e nem sei se vou. A final, me apeguei à lição dolorosa aprendida por Sísifo e no alerta de Zeus: “Os mortais não têm a liberdade dos deuses”. E não temos mesmo! Mas uma coisa eu tenho: a certeza de que não receberemos um castigo eterno caso queiramos assumir o papel de herói, vez ou outra. Ninguém vai ter de carregar pedra morro abaixo, ladeira acima, não! Mas quem garante que, não vivamos o suplício de Sísifo já por aqui, sem montanha mesmo, toda vez que insistimos em carregar pedras que não são nossas? Toda vez que hesitamos em largar a capa de super-herói e parar de travar batalhas que não nos dizem respeito? Toda vez que relutamos em abandonar o complexo de salvador por calvários pelos quais não merecemos passar sozinhos? Toda vez que nos falta a compreensão de que nem tudo depende da nossa aura de herói? Aprendi que, na montanha íngreme da vida, ninguém sobe sem pedra nas costas. Elas são necessárias pra que nossa subida tenha propósito. Faça sentido. Há pedras que merecem muito do nosso esforço. Há outras que merecem só um pouco dele. Há aquelas que ainda carregamos quando já deviam estar no chão e, há outras que nunca nem deveriam ter estado lá, com a gente. Claro que a subida é longa, exaustiva e acidentada. Mas acho que tudo fica mais leve, seguindo o fluxo natural da vida e prazeroso, quando paramos, vez ou outra durante o trajeto, olhamos pro nosso alforje e retiramos qualquer peso extra desnecessário. Só que isso requer autoconhecimento, coragem, cuidado e amor próprio pra olharmos pra dentro de nós mesmos e, com bastante eco, gritarmos, enquanto subimos, cansados, mas fortes e resolutos pelo vale rochoso da vida: NÃO, ESSA PEDRA EU NÃO CARREGO MAIS.

