Rio Branco, Acre - domingo, 08 março, 2026

Entre café, coragem e recomeços: a história de Gabi, símbolo da força feminina no campo acreano

DIA INTERNACIONAL DA MULHER

A estrada de chão que leva à Vila Belo Jardim, na zona rural de Rio Branco, parece guardar histórias que ainda estão sendo escritas. No Dia Internacional da Mulher, uma delas ganha ainda mais significado. No fim do caminho de poeira e silêncio, surge a casa simples onde vive Gabriela de Freitas Tavares. Aos 25 anos, a jovem produtora — conhecida por todos apenas como Gabi — transformou dois hectares de terra e seis mil mudas de café robusta amazônico em um retrato de coragem, fé e persistência no campo acreano.

A recepção de Gabi a equipe do Correio Online foi calorosa. Um sorriso largo, daqueles que parecem iluminar o ambiente, e o orgulho de quem tem algo especial para mostrar. Gabi não demora muito na varanda. Logo convida para conhecer o cafezal. O trajeto exige mais alguns minutos de carro e depois uma pequena caminhada. O silêncio da propriedade é quebrado apenas pelo canto dos pássaros, até que o verde das fileiras de café surge diante dos olhos — jovem ainda, mas cheio de promessas.

Cada muda é apontada com cuidado, quase como se fosse apresentada uma a uma. Ali estão mais do que plantas: estão as marcas de uma história recente, construída com sacrifício e esperança. Filha de Manoel Francisco Tavares e Vanda Pereira de Freitas, Gabi cresceu na cidade, mas viu a vida da família mudar completamente após uma decisão difícil. Os pais venderam a casa para investir no campo e apostar no cultivo do café, uma cultura que começava a ganhar espaço no Acre.

O início foi duro. Nos primeiros meses, muitas plantas morreram por falta de irrigação. Faltava estrutura, faltava dinheiro, mas nunca faltou disposição para continuar.

“O começo foi muito difícil. A experiência mais dolorosa foi ver nossas plantas morrendo sem irrigação e não ter condições financeiras para resolver. Tivemos que buscar empréstimo e mesmo assim não conseguimos comprar tudo o que precisávamos. Mas a gente nunca desistiu. Colocamos fé, garra e determinação”, relembra Gabi, com a voz que mistura emoção e orgulho.

A insistência da família começou a dar resultado. O cafezal cresceu, ganhou forma e, com ele, veio também o reconhecimento. No QualiCafé 2025, concurso que reúne alguns dos melhores cafés robusta da Amazônia, Gabi conseguiu colocar sua produção entre as melhores do estado logo na primeira safra. O resultado final trouxe o nono lugar na classificação geral.

Para ela, o resultado teve um significado que vai muito além de um número. “Eu não imaginava chegar tão longe. Foi a nossa primeira safra. Então, pra mim e pra minha família já foi uma vitória enorme. Estar entre os melhores cafés do estado mostrou que todo o esforço valeu a pena”, conta.

Foto: Alice Leão/Secom

Entre os finalistas do concurso, apenas três eram mulheres. A presença feminina em um espaço tradicionalmente dominado por homens ganhou um peso simbólico ainda maior para a jovem produtora. “Para mim é uma superação. Nós, mulheres, ainda enfrentamos muita dificuldade para sermos reconhecidas na produção. Estar ali mostra que também temos força para produzir, liderar e crescer no campo”, afirma.

 

O orgulho da conquista aparece no olhar atento com que ela percorre as fileiras do cafezal. Cada planta carrega um pouco da história da família. Cada folha verde lembra o caminho que foi percorrido para chegar até ali.

Aos poucos, o sonho vai se ampliando. A meta agora é continuar expandindo a área de cultivo e fortalecer a produção ano após ano. O desejo da família é viver exclusivamente do café e, quem sabe, levar o nome da produção acreana para mercados cada vez maiores.

“Às vezes a gente sente que o nosso trabalho não é tão reconhecido aqui. Mas quando o café começa a ser valorizado, dá uma alegria enorme. Quem sabe um dia a gente não consegue colocar nossa marca no mundo”, diz Gabi.

Foto: Alice Leão/Secom

Enquanto caminhamos de volta pela propriedade, fica clara a dimensão do que está sendo cultivado ali. Não são apenas pés de café crescendo em duas hectares de terra. É uma história de recomeço, de aposta no futuro e de uma geração que acredita no potencial da Amazônia para produzir riqueza de forma sustentável.

No Dia Internacional da Mulher, a trajetória de Gabi revela algo essencial: a força feminina no campo não nasce de discursos. Nasce do trabalho diário, da persistência diante das dificuldades e da coragem de continuar plantando, mesmo quando muitos dizem que não vai dar certo.

Entre as fileiras verdes que se espalham pela pequena propriedade da Vila Belo Jardim, Gabi planta café. Mas também planta futuro. E, com ele, inspira todo o Acre.

Foto: Correio online
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