FLORESTA TOMBANDO, DISCURSO DE PÉ
Dados de órgãos nacionais e internacionais revelam avanço da destruição florestal, ineficácia das políticas públicas e crise ambiental sem precedentes
Em plena Semana do Meio Ambiente, o Acre volta ao centro de uma controvérsia que insiste em se repetir: a contradição entre o discurso oficial de preservação e os números alarmantes do desmatamento, da degradação e das queimadas.
Dados do Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon), divulgados na segunda-feira, 2, revelam que o estado foi responsável por 2% de toda a área desmatada da Amazônia Legal em abril de 2025, segundo o Sistema de Alerta de Desmatamento (SAD).
Nos meses anteriores, o Acre apresentou percentuais semelhantes: 2% em janeiro e fevereiro, e 1% em março de 2025. Isso demonstra uma consistência na participação do estado nos índices de desmatamento ao longo do primeiro quadrimestre do ano.
Embora o percentual pareça modesto, o contexto revela um cenário preocupante: o Acre segue na contramão dos estados vizinhos, sendo o único a registrar aumento de desmatamento em 2024, com crescimento de 31% em relação ao ano anterior, conforme o MapBiomas.
Em 2023, o estado já havia desmatado cerca de 300 km²; em 2024, saltou para mais de 390 km², com mais de 97% desse total sendo considerado ilegal, segundo o Instituto Centro de Vida (ICV).
Além disso, dados da plataforma PrevisIA, do próprio Imazon, colocam o Acre entre os quatro estados com maior área sob risco de desmatamento em 2025: 683,68 km², sendo que a Reserva Extrativista Chico Mendes — símbolo mundial de luta ambiental — está entre as unidades de conservação mais ameaçadas da Amazônia.
De acordo com o INPE, entre janeiro e março deste ano, o Acre foi o terceiro estado da Amazônia com maior aumento percentual de áreas desmatadas: 17% em relação ao mesmo período de 2024. Foram mais de 350 km² de floresta derrubada, principalmente em Feijó, Sena Madureira e Manoel Urbano, municípios cortados pela Transacreana, onde o avanço da grilagem e do gado pressiona as áreas protegidas.
O dado mais contundente veio do Global Forest Watch (GFW): em 2024, o Acre liderou a perda proporcional de floresta primária no Brasil, com 0,27% de sua cobertura devastada em um único ano — uma taxa maior que a de estados historicamente críticos como Pará e Mato Grosso.
Impactos sentidos – A crise ambiental não é futura: é presente. O rio Acre perdeu 40% de sua mata ciliar nos últimos 55 anos, conforme levantamento recente da plataforma InfoAmazônia. O resultado disso são as enchentes mais severas da história e, em seguida, secas prolongadas com colapsos no abastecimento hídrico e impacto direto sobre populações ribeirinhas e urbanas.
Desmatamento na Amazônia Legal
O desmatamento na Amazônia Legal, de forma geral, apresentou um aumento significativo em abril de 2025. O SAD detectou 529 km² de áreas desmatadas, representando um aumento de 171% em comparação com abril do ano anterior. Esse foi o maior valor registrado para o mês nos últimos dez anos. O Pará liderou o ranking dos estados que mais desmataram, seguido por Amazonas, Mato Grosso e Rondônia.
Além do desmatamento, a degradação florestal também é uma preocupação. Em outubro de 2024, por exemplo, a Amazônia Legal registrou 6.623 km² de florestas degradadas, um aumento de 326% em relação ao mesmo mês do ano anterior. A degradação é causada principalmente por queimadas e extração madeireira, afetando significativamente o ecossistema da região.
Para enfrentar esses desafios, o Imazon utiliza tecnologias avançadas, como a plataforma de inteligência artificial PrevisIA, que identifica áreas com maior risco de desmatamento. Essa ferramenta prevê que, se medidas preventivas não forem adotadas, mais de 6.500 km² de florestas podem ser desmatados na Amazônia em 2025. No caso do Acre, a PrevisIA aponta que 683,68 km² estão sob risco de desmatamento, sendo 63,38 km² classificados como risco muito baixo, 222,57 km² como baixo, 363,19 km² como médio e 34,54 km² como alto.
Esses dados ressaltam a importância de ações coordenadas entre governos, organizações não governamentais e comunidades locais para monitorar e combater o desmatamento e a degradação florestal na Amazônia, garantindo a preservação desse bioma vital para o equilíbrio climático global.
A promessa e a prática: a COP30 no horizonte
Durante a 15ª Reunião Anual do GCF Task Force, realizada em Rio Branco no dia 22 de maio, o governador Gladson Cameli afirmou que “os índices de desmatamento precisam ser zero” e que o Acre deve “assumir a liderança em um modelo inovador e sustentável”. Mas os dados contradizem essa projeção. O próprio relatório do GCF, divulgado em março, apontou o estado como um dos que menos executaram orçamento em programas de REDD+ e reflorestamento.
Um exemplo gritante é o Programa ISA Carbono, lançado em 2022 com a meta de reflorestar 100 mil hectares até 2025. Até fevereiro deste ano, apenas 9,3% dessa meta foi executada.
Além disso, os sistemas de alerta do Imazon e do MapBiomas registraram que quatro dos dez maiores focos de desmatamento da Amazônia em 2024 estavam no Acre, incluindo áreas próximas ao Parque Nacional da Serra do Divisor, ameaçado por projetos de infraestrutura viária, como a polêmica estrada até Pucallpa, no Peru.
Fiscalização em queda
Apesar das promessas de combate intenso às queimadas, a execução orçamentária reflete o oposto. Em 2018, os investimentos diretos em fiscalização ambiental representavam 0,8% do orçamento estadual. Em 2024, caíram para 0,3%, de acordo com dados da Secretaria de Planejamento do Estado.
Enquanto isso, a Reserva Extrativista Chico Mendes, símbolo internacional da luta ambiental, aparece como a segunda unidade de conservação mais ameaçada da Amazônia, com mais de 71 km² sob risco de desmatamento, segundo a plataforma PrevisIA.
