Rio Branco, Acre - sexta-feira, 06 março, 2026

Elzinha Mendonça atua entre o parlamento e os bairros esquecidos para dar voz às mulheres de Rio Branco

Foto Internet

Com presença ativa nas ruas e propostas firmes no plenário, Elzinha desafia a lógica da política de gabinete e transforma escuta em ação.

Ela poderia ter se calado. Poderia ter feito o básico. Poderia ter seguido o caminho mais confortável — o da política burocrática, dos gabinetes refrigerados e das fotos nas inaugurações. Mas Elzinha Mendonça escolheu estar aonde a política não chega. Onde falta creche, falta posto, falta luz, falta chão seco. E onde sobra dor.

Em conversa com a equipe do Jornal O Correio, Elzinha fala não apenas como vereadora, mas como mulher, como filha de Deus, como alguém que não se contenta em existir — quer transformar. Sua voz não é decorada. É marcada pela emoção, pelas perdas, pela representatividade nas ruas, pelas lutas que carregam nome, CPF e endereço.

“Elas gritam por dignidade. Gritam por uma creche para o filho, por uma saúde que funcione, por educação, por respeito. Mas o poder público ainda não tem devolvido o que essas bandeiras tanto precisam”, diz, quando perguntada sobre o grito das mulheres da periferia.

Não é a primeira vez que ela responde isso. Mas ainda se emociona ao repetir. E logo explica que, enquanto se fala bonito de “empoderamento”, a realidade de quem está nas filas do posto e da creche é outra. “Empoderamento de verdade é dar acesso. É construir com elas, e não por elas. Se não for assim, vira discurso vazio.”

Quando perguntamos o que é carregar essa missão sendo mulher, o semblante muda. Ela respira fundo. “A política ainda é um ambiente muito masculino. Já tentaram me silenciar, desprestigiar, deslegitimar. Já me chamaram de ‘rata de alagação’ como forma de me ridicularizar. Mas eles não conseguiram me parar, pois entendi que, se estão tentando te calar, é porque tua voz incomoda.”

Entre a rua com lama e a tribuna

A vereadora tem sido presença constante em lugares onde poucos políticos pisam. Não se incomoda com a lama. Com o mato alto. Com a água suja batendo no joelho. “Eu sou vereadora do povo. E a política precisa sair do gabinete. Não adianta tirar foto em evento se você não vai lá aonde a dor está acontecendo.”

Mas se engana quem pensa que ela romantiza a resistência. “É difícil. Tem dias em que a gente cansa. Tem agenda, reunião, comissão, e o povo querendo resposta. Eu sou uma só. Mas eu não posso desistir. Porque quando uma mulher entra na política, ela abre uma porta que estava trancada.”

Cuidar de quem cuida

A sua atuação política está marcada por temas que raramente ganham atenção de fato. Saúde mental materna. Educação de crianças autistas. Acolhimento às mães solo. “São temas que ainda são vistos como menores. Como se fossem ‘pauta de mulher’. Mas são pautas de base. E sem base, não se constrói nada.”

Elzinha não fala do feminicídio como dado estatístico. Fala com a voz embargada. “Cada vez que uma mulher é morta pelo homem que dizia amá-la, morre um pedaço da gente. Não tem como subir na tribuna e não chorar.”

O Acre segue entre os estados com maior taxa proporcional de feminicídio do país. Em 2024, pelo menos 18 mulheres foram assassinadas. E, segundo Elzinha, faltam políticas que cheguem antes da tragédia.

“A mulher denuncia, e depois? Vai para onde? Quem acolhe? Quem cuida da saúde mental dela? E do filho que viu tudo acontecer?”

Ela defende a criação de um centro de referência voltado para as mulheres — com atendimento psicológico, social e jurídico. Mas lamenta a falta de estrutura e de prioridade. “Rio Branco não tem uma secretaria da mulher. Isso já diz muito. E quando propusemos um projeto para ressocializar agressores, foi vetado.”

A crítica ao Executivo é direta. “Se é para proteger a mulher de verdade, tem que ter coragem. Vetar projeto que busca prevenir violência é retrocesso.”

Força, fé e futuro

E quando a pergunta vira para ela — quem cuida de Elzinha? — a resposta vem com humildade e humanidade. “Primeiro, Deus. Depois, minha família, minha fé. E a terapia. Faço atividade física todos os dias às cinco da manhã. Mudei minha alimentação. Porque eu entendi que, para cuidar dos outros, eu preciso estar bem.”

Elzinha fala com firmeza, mas não tem vergonha de mostrar as fragilidades. “A política adoece. E a gente precisa se fortalecer. Eu já tive muito medo. Medo de ser mulher e estar nesse espaço. Medo de ser atacada. De ser calada. Mas fui com medo mesmo. Porque se a gente esperar não ter medo, nenhuma mulher entra.”

De onde ela vem

Filha de dona Raimunda, uma mulher simples que sempre lhe ensinou a olhar para o outro, Elzinha cresceu em um ambiente de luta e de compaixão. “Foi minha mãe quem me ensinou que a gente não pode virar o rosto diante da dor do outro. E meu pai sempre dizia: se for para fazer, que seja com coragem e verdade.” Antes da política, veio a escuta. Veio o cuidado. Veio a vocação para estar onde ninguém mais queria estar.

Não foram poucas as vezes em que ela pensou em desistir. “A gente se sente sozinha. E não é só por ser mulher, é porque você vai contra um sistema inteiro. Mas quando olho para cada mulher que me agradece por uma visita, por uma escuta, por uma palavra, eu entendo que vale a pena.”

Nem grito, nem histeria: é urgência

“Já me disseram que sou agressiva. Que sou briguenta. Que falo demais. Mas se um homem age assim, ele é firme. Quando é mulher, é emocional, é exagero. Eu não aceito mais esses rótulos. Minha voz não é esse rótulo que tentam taxar. Minha voz é urgente.”

Na avaliação do próprio mandato, ela lembra que foi a vereadora mais votada em sua coligação nas três eleições que disputou. “Isso mostra que o povo reconhece. Porque eu continuo a mesma. Com o pé no barro, com o coração aberto, com a escuta ativa.”

Ao ser perguntada sobre o futuro, ela é direta. “Se o grupo disser que é minha hora de ir pra Aleac, eu estou pronta. Mas se disserem que eu continuo aqui, sigo com o mesmo compromisso. Porque minha missão não depende do cargo. Depende da entrega.”

A entrevista termina com a mesma emoção que começou. Com a sensação de que a trajetória da vereadora Elzinha Mendonça foi moldada por impactos. De uma mulher que não pede licença para falar, ela simplesmente fala, pois tem consciência de que é a voz de muitas outras mulheres dessa Capital. Que já foi silenciada — mas hoje grita com ainda mais força. E que transforma política em instrumento de cuidado, de enfrentamento e de propósito.

“Ser mulher na política ainda é um ato de coragem. E eu escolhi não apenas existir nesses espaços — eu escolhi transformá-los”, assim finaliza Elzinha a entrevista.

“Empoderamento de verdade é dar acesso. Se não for com elas, vira discurso vazio.”

“Já me chamaram de ‘rata de alagação’ para tentar me ridicularizar. Mas sigo firme, porque sei o peso da minha voz.”

“A política adoece. Mas eu me fortaleço todo dia. Porque quando uma mulher entra, ela abre portas para muitas outras.”

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