Perguntei à IA a definição de “Boa Vizinhança”. A resposta foi: Refere-se a um conjunto de atitudes baseadas em respeito, empatia e gentileza para garantir uma convivência harmônica. Envolve evitar ruídos altos, respeitar regras” (…) E seguiu… Mas eu não. Eu parei! Destaquei dois trechos e corri pra tela na tentativa de humanizar a definição dada pela máquina. O engraçado é que isso me levou pra tela novamente, mas de 14’ polegadas, acomodada numa mesinha de ferro meio enferrujada sob a decoração de um paninho de crochê. Era madrugada de 2002. Junho. Sobral. Calendário de jogos na mão. Despertador de pilha na outra. Éramos só e meu solado magrinho, que fazia uma força tremenda pra não acordar a vizinhança. Era Copa. E eu, além dos jogos da Seleção, me dispunha a assistir a partidas de países que mal sabia que existiam. Não conseguiria apontar no mapa nenhum deles, se me pedissem. O volume de jogos era alto. Mas eu abaixava o volume do som da TV em respeito à política da boa vizinhança de [evitar ruídos altos]. 24 anos depois. Madrugada de terça pra quarta, 31 de março. TV ligada. Clima de Copa. Expediente no dia seguinte e… IRAQUE X BOLÍVIA: quem vencesse estaria no Mundial desse ano. Confesso que me envolvi. Nem sei se foi somente a paixão de sempre pelo futebol, dos tempos de TV de 14’. Acho que foi mais a EMPATIA PELO VIZINHO MESMO. Afinal, antes do apito, eu já tinha seguido a página oficial do Governo. Curtido publicação da Federação de Futebol da Bolívia. Até ensaiei uns cantos. E… calei! GOL DO IRAQUE! Empatamos em seguida e quase me saiu um: “DALE! ”, “ARRIBA!”, “ADELANTE!”, “SI, SE PUEDE!”. Foram 90’ minutos de torcida latina acompanhada de um espanhol meio que “latido”, seguido das pronúncias arranhadas de incentivo: “ Muy Bien, Viscarra!” “Vá, Miguellito!”, “Vamos, Villamíl!”, “Si, Painiágua…!”. Por alguns momentos, não sabia se estava em 2002, com dez anos ou em 2026, com 34. “La Verde”, meu vizinho no futebol, não vai pra Copa. Iraque venceu com mais um gol aos 53 minutos. Mas, pra falar a verdade, pouco importa. O que importa é que me importei com meus vizinhos em 2002, pra não os acordar com minha paixão descontrolada por futebol na madrugada, e que, em 2026, me importei novamente, pra que tivessem sucesso. Pra que sorrisem com a alegria do futebol em vez de se entristecerem com os problemas da nação [como nossotros]. E deve ser sobre isso. No futebol e na vida: Torcer pelo sucesso do vizinho. A IA apontou e sugeriu empatia e evitar ruídos altos na sua definição de BOA VIZINHANÇA. Eu segui os dois. Nas duas vezes.

