Educação na UTI: novo relatório revela queda no aprendizado do Acre entre jovens

Foto Divulgação

Acre continua abaixo da média nacional em todas as etapas da educação pública

Enquanto governos anunciam programas e celebram índices tímidos, a realidade nas salas de aula do Acre escancara uma tragédia silenciosa: as crianças e jovens estão aprendendo menos, abandonando a escola mais cedo e carregando, cada vez mais cedo, o peso de um futuro amputado.

O estudo Aprendizagem na Educação Básica, divulgado em abril de 2025 pelo Todos Pela Educação, baseado no último Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb), revela que o estado do Acre continua abaixo da média nacional em todas as etapas da educação pública.

Apesar da pandemia ter sido o golpe mais recente, a ferida é antiga — e segue aberta.

Foto Divulgação

Números que não mentem

Em 2023, o Acre registrou:

– Nota 6,1 nos anos iniciais do Ensino Fundamental (média nacional: 6,12);

– Nota 4,7 nos anos finais (média nacional: 5,14);

– Nota 3,9 no Ensino Médio (média nacional: 4,44).

Além disso, a taxa de distorção idade-série — alunos com dois anos ou mais de atraso escolar — é alarmante:

– 17% nos anos iniciais do Ensino Fundamental (média nacional: 7,5%);

– 27,2% nos anos finais (média nacional: 17%);

– 26,7% no Ensino Médio (média nacional: 19,5%).

Em provas de proficiência, o estado também decepcionou:

– 269,17 pontos em Língua Portuguesa no Ensino Médio;

– 264,15 pontos em Matemática — ambos abaixo da nota mínima para desempenho adequado.

A face da desigualdade

O levantamento aponta ainda que desigualdade racial aumentou. Enquanto 45,6% dos alunos brancos e amarelos do país alcançaram nível adequado em Língua Portuguesa no 9º ano, apenas 31,5% dos pretos, pardos e indígenas chegaram lá.

No Acre, onde boa parte da população é negra e indígena, essa realidade é ainda mais dura — embora o governo estadual insista em propagar otimismo.

No Ensino Médio, em 19 municípios do Acre, menos de 20% dos estudantes conseguiram atingir aprendizado adequado em Matemática.

Foto Divulgação

Discurso bonito, realidade feia

Enquanto as autoridades estaduais anunciam projetos como o “Projeto Ideb” e celebram “avanços”, os dados gritam outra história: escolas sem infraestrutura adequada; carência de formação continuada para professores; falta de acompanhamento pedagógico efetivo; materiais didáticos inconsistentes.

Tudo isso resulta em um quadro onde a escola pública se torna um ritual burocrático de exclusão: o aluno entra, permanece um tempo, mas não aprende o suficiente para transformar sua vida.

A pandemia apenas acelerou o colapso de um sistema que já vinha falhando.

O que está em jogo

O mais grave é que não se trata apenas de notas baixas em avaliações. Estamos falando de um futuro comprometido para milhares de crianças e jovens que serão adultos sem a formação básica necessária para competir por empregos dignos, acessar ensino superior ou mesmo exercer plenamente sua cidadania.

Enquanto isso, o discurso oficial segue vendendo a ideia de “avanços” e “programas inovadores”, sem encarar de frente a raiz do problema: a falta de uma revolução educacional real, com investimentos, seriedade e metas ousadas.

Região Norte amarga os piores índices de aprendizagem do Brasil

A situação do Acre é grave, mas não é isolada. A Região Norte, como um todo, amarga os piores resultados educacionais do país segundo o estudo Aprendizagem na Educação Básica (Todos Pela Educação, abril de 2025) e o Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb 2023).

Veja o cenário:

Desempenho em Língua Portuguesa – 9º Ano do Ensino Fundamental

Estado Percentual de alunos no nível adequado
Acre 28%
Amazonas 30%
Amapá 27%
Pará 25%
Rondônia 32%
Roraima 31%
Tocantins 35%
Média Brasil 41%

Foto Divulgação

Desempenho em Matemática – 9º Ano do Ensino Fundamental

Estado Percentual de alunos no nível adequado
Acre 21%
Amazonas 24%
Amapá 20%
Pará 18%
Rondônia 26%
Roraima 23%
Tocantins 30%
Média Brasil 35%

Principais Problemas apontados na Região Norte

O estudo revela que na Região Norte, os principais problemas na área da Educação estão relacionados a altíssima distorção idade-série. Em alguns estados, mais de 1/4 dos alunos estão atrasados dois anos ou mais.

Baixos índices de alfabetização no 2º ano também são apontados no levantamento. Apenas 44% das crianças da Região Norte conseguiram atingir a alfabetização adequada em 2023 (Brasil: 49%). Além disso, a infraestrutura precária prejudica o alcance da meta nacional. Falta de laboratórios de ciências, bibliotecas, internet adequada e espaços esportivos.

Por fim, identifica-se que a desigualdade étnico-racial está ainda mais acentuada. Grande parte dos estudantes da rede pública são pretos, pardos ou indígenas — exatamente os grupos com pior desempenho médio.

A Região Norte, historicamente negligenciada em termos de investimentos educacionais estruturantes, enfrenta uma crise que ameaça perpetuar ciclos de pobreza e exclusão. Mesmo diante de políticas nacionais voltadas para a equidade, como o Novo Fundeb e a Política Nacional de Alfabetização, o ritmo de recuperação da aprendizagem no Norte é mais lento do que no restante do país.

Especialistas apontam que, sem políticas públicas específicas e investimentos focados, a Região Norte pode carregar os piores índices educacionais do Brasil por mais uma década — com impactos diretos no desenvolvimento econômico e social.

Foto Divulgação

O Brasil que não aprendeu: radiografia da crise na Educação Básica

Os dados do estudo Aprendizagem na Educação Básica, divulgado em abril de 2025 pelo Todos Pela Educação com base nos resultados do Saeb 2023, revelam um cenário preocupante: a educação pública brasileira ainda não conseguiu se recuperar dos impactos da pandemia e aprofundou desigualdades sociais e raciais.

O Brasil enfrenta uma situação paradoxal: mais acesso à escola, mas menos aprendizagem efetiva. Mesmo com alguma recuperação pós-pandemia, o Brasil ainda não retomou o patamar de alfabetização de 2019.

Principais alertas do estudo:

Crescimento lento da aprendizagem: A retomada pós-pandemia é mais frágil do que o necessário para corrigir as perdas.

Agravação da desigualdade social e racial: As lacunas de aprendizagem entre alunos ricos e pobres, brancos e não-brancos, cresceram.

Risco de retrocesso estrutural: Sem políticas ousadas, o Brasil caminha para consolidar uma geração “sem alfabetização plena” e com severas dificuldades em matemática.

Desigualdade étnico-racial agravada

Língua Portuguesa (9º ano):

– 45,6% dos alunos brancos/amarelos no nível adequado

– Apenas 31,5% dos pretos, pardos e indígenas atingiram o mesmo nível

– A diferença entre grupos subiu de 9,6 para 14,1 pontos percentuais em dez anos (2013–2023).

Matemática (9º ano):

– Discrepância semelhante: brancos/amarelos superam em quase 15 pontos os estudantes pretos, pardos e indígenas.

Linha do Tempo – Evolução da Aprendizagem no Brasil (2013–2023)

Ano de 2013
Percentual de alunos no nível adequado (9º ano):
Língua Portuguesa: 38%
Matemática: 31%
Desigualdade racial: diferença de 9,6 pontos percentuais entre alunos brancos/amarelos e pretos/pardos/indígenas (em Língua Portuguesa).

Foto Divulgação

Ano de 2017
Percentual de alunos no nível adequado (9º ano):
Língua Portuguesa: 40%
Matemática: 33%
Pequenos avanços na alfabetização e melhoria tímida na aprendizagem geral.
Início de políticas focadas em BNCC (Base Nacional Comum Curricular).

Ano de 2019 (Pré-pandemia)
Percentual de alunos no nível adequado (9º ano):
Língua Portuguesa: 41%
Matemática: 35%
Alfabetização no 2º ano: 55% das crianças estavam alfabetizadas.
Desigualdade racial: já era significativa, mas relativamente estável.

Foto Divulgação

Ano de 2021 (Pós-pandemia imediato)
Impacto severo: redes públicas tiveram longos períodos de escolas fechadas.
Alfabetização no 2º ano: caiu para 40% — a maior queda já registrada.
Defasagem escolar: aumento do abandono e da distorção idade-série.

Ano de 2023
Percentual de alunos no nível adequado (9º ano):
Língua Portuguesa: 41% (recuperação tímida, mas ainda insuficiente).
Matemática: 35% (estagnado desde 2019).
Alfabetização no 2º ano: 49% — não recuperou o patamar de 2019.
Desigualdade racial: diferença saltou para 14,1 pontos percentuais.
Especialistas alertam: Brasil caminha para consolidar uma geração com déficit educacional crônico.

Compartilhar