Não espere o palco montado, o cenário é o chão onde pisas. O instante não é ensaiado, apenas acontece… e desliza.
“Nem era pra eu tá aqui!”. Foi minha última frase ainda no anonimato das telas, fora do alcance dos holofotes e da crítica cinematográfica. Claro que tô exagerando! Foram só alguns cortes de vídeo pra divulgação de um evento da igreja, mas, pra quem não era nem pra estar lá, é evento canônico, é papo de cinema. Foi na gelada quarta-feira à noite, e o convite veio despretensioso, logo após algumas agendas por lá: “O senhor quer ser figurante?” pensei: “ficar sentado e fazer volume”, eu topo! Caminhei com o elenco e atuei como um bom coadjuvante, ou seja: fui eu mesmo! Não tinha fala. Não segurava câmera. Era só volume. Um rosto pra pixel. Um, dois, três cortes e, eu já me via por satisfeito, afinal: não era nem pra eu estar lá mesmo. “Só mais um!”, me disseram. Mais dois, me convenceram, mais três, me seguraram. Depois que o tempo passou a ser contado pela quantidade de gravações, tomadas e cenas, eu comecei a perceber a seriedade do caso. Já não cabia mais a atuação do: “não era nem pra eu tá aqui!”. Agora, eu tava envolvido. As luzes se acenderam na minha mente e, quando notei, tava no Ato 2 da noite. “A gente não têm mais roteiro, o senhor pode ajudar?” E agora? “Não era nem pra eu… deixa! Abri o bloco de notas do celular e, dali em diante, pra cada cena, um script era criado, ali, no “instante que acontece e desliza…” Não havia mais tempo pra ensaio. Era a vida no palco: o momento em movimento. Levamos algumas horas até concluir. Depois de um tempo, já nem questionava mais a minha sorte. Só vivia cada cena. “Era sim pra eu tá ali”, pensei pela primeira vez. O vídeo ficou pronto. Minha atuação não foi das melhores. Claro que não teve holofote nem nota da crítica especializada. Mas faço questão de tecer um pós-crédito sobre minha breve carreira: A vida não se apresenta a nós com roteiro pronto. Não tem gravação, tomada, recorte, tape, edição… as cenas são feitas no instante em que estamos ali, em cima do palco, enquanto ainda tentamos decorar o texto, enxugamos o suor e controlamos a tremedeira. Ela acontece no ao vivo, com o GC de exclusivo, sob status de inédito, no instante: e o instante não é ensaiado, ele apenas acontece e desliza. Logo, não dá pra gente achar que vai ficar a vida toda na figuração, sentados, enquanto outros atores protagonizam todo o espetáculo, que também é nosso, melhor: todo nosso! Então, o negócio é escrever o próprio roteiro. Entrar em cena. Subir no palco… sorrir e pensar: “É sim pra eu tá aqui: AÇÃO!”

