Rio Branco, Acre - quinta-feira, 30 julho, 2026

E QUANDO É A VIDA QUE SAI DOS TRILHOS, QUEM A GENTE CHAMA?

“[…] Enquanto isso, Odisseu manejava o arco, revirando-o em suas mãos, experimentando-o, verificando se os anos não o haviam danificado […] Em seguida, com a mesma facilidade com que um músico retesa as cordas de uma lira, Odisseu vergou o arco.”

Juro que não darei spoiler da quarta adaptação da Odisseia, do diretor Christopher Nolan. O trecho é do Canto XXI da obra original de Homero – 700 A.C. É da volta triunfal de Odisseu à Ítaca, e a cena se passa justamente no momento do teste de Penélope, sua esposa, enquanto dezenas de pretendentes aceravam a Casa mirando o trono do Rei ausente. A prova? Armar o arco deixado por ele, guardado por anos desde sua partida. Não deixei por anos, mas posterguei por uns seis meses o conserto do portão daqui, também envergado, como o arco de Odisseu, mas por aqui o motivo fora outro: uma pancada de carro. Por todo esse tempo, voltei ao analógico, e abria o portão à moda de Ítaca: descendo e empurrando manualmente. Até que, no último sábado, foi o grande Teste de “Penélope”! Contratei alguém na certeza de, facilmente, em questão de alguns minutos, resolver o problema de seis meses e devolver o conforto da modernidade à minha casa. Porta fechada pra minha torta e envergada ilusão! Três horas depois e eu já tava com meu chapéu de trabalho e o rosto queimado pelo sol escaldante de sábado à tarde. Quatro horas depois e já tinha calçado luvas e criara dois calos. Quase seis [e acho que a ironia da vida me cobrou uma hora pra cada mês de procrastinação] e eu juntava as últimas forças pra recolocar o portão de chapa 12’ pela quinta vez nos trilhos, na esperança de que se endireitara e, que agora, correria novamente na suavidade das roldanas engraxadas sobre os trilhos após seis meses de inatividade. Mas ainda não! Já na sétima hora, do sexto mês, aceitei minha Odisseia: tirei o chapéu, a luva e direcionei toda energia, atenção e esforço ao trilho que corria sobre minha cabeça. Lembro de ter pensado: “Essa é a última tentativa!” No final daquela tarde, o portão já corria. Dali em diante, a ordem seria retomada na minha casa e eu reivindicaria o poder e controle do acesso aos meus aposentos. Fim da Odisseia! Começo da reflexão: Naquela noite, percebi o quanto o universo nos cobra, e com juros, o tempo que demoramos pra pormos em ordem a nossa vida. Aprendi que, se tivermos algum conserto, manutenção ou reparo, mesmo que pequenos, mas ainda pendentes, parados, esquecidos ou deixados à mercê do adiamento, seja no corpo, alma ou mente da gente, devemos tomar à frente e buscar a solução rápida e imediata. Mas, principalmente, descobri, através da dor e cansaço sob o sol a pino, que quando algo em nossa vida sai dos trilhos, muitas das vezes após uma forte pancada, podemos até chamar alguém com experiência, habilidade e força pra ajudar, e isso será necessário, justo e prudente. Mas as coisas só se encaixam mesmo, de verdade, tal qual o arco adormecido de Odisseu, quando o verdadeiro dono chega, arregaça as mangas, tira o chapéu, as luvas e assume o papel de protagonista de cada teste que a vida faz na Odisseia particular de cada um. Na Ítaca da gente, entre os muros da nossa vida, não assistimos sentados a arrumação das entradas e aldravas do nosso castelo, não encorajamos forasteiros e nem alimentamos ameaças ao controle e acesso às nossas terras e, muito menos, colocamos em jogo a assunção de outrem ao nosso trono. No sábado foi o portão, e eu chamei alguém. Semana que vem, a janela, na outra, o armário, na outra… e na outra… Mas, e quando for a vez da VIDA sair dos trilhos, quem é que a gente vai chamar?

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