Foto: Correio online
Produtor desde os seis anos, Lourimar construiu história de trabalho, perdas e resistência no Acre, onde ainda hoje tira o sustento da terra e da banca
Aos seis anos de idade, enquanto muitas crianças ainda descobrem o mundo, Lourimar Gomes Pereira já aprendia a sobreviver dele. Foi no mercado, ao lado do pai, que começou a vender pimenta de cheiro — atividade que atravessou décadas e moldou sua trajetória no Acre.
Natural do Ceará, Lourimar chegou ainda criança ao estado e nunca mais saiu. Seguiu o caminho do pai, que passou 38 anos na mesma atividade antes de retornar à terra natal com o que conseguiu juntar. “Meu pai trabalhou 38 anos e foi embora. Eu fiquei. Continuei”, conta. Ao longo do tempo, diversificou a produção e chegou a vender abacaxi, mas foi na pimenta que encontrou seu sustento. “Toda a vida foi minha produção”, afirma.
Ao longo das décadas, Lourimar viu o mercado mudar, os espaços se transformarem e o próprio comércio se reinventar. Passou pela antiga Feirinha da Estação, pelo Mercado Velho, pelo terminal e hoje ocupa seu ponto atual, onde construiu clientela e estabilidade. Já vendeu de tudo um pouco, especialmente abacaxi, mas foi na pimenta que consolidou sua renda. “Toda a vida foi minha produção”, afirma. Mais recentemente, uma mudança chamou atenção: a chegada de uma nova variedade, trazida de fora. “Essa pimenta aqui veio de São Paulo. Não tinha aqui não. Agora tem muita saída”, diz.

A preferência do consumidor também mudou — e Lourimar percebe isso na prática, semana após semana. “O pessoal só quer pimenta grande, que é boa de cortar. A pequena quase não vende”, explica. A diferença aparece direto na banca: em um fim de semana, a pimenta maior acaba rápido, enquanto a menor sobra. “Se eu tiver, vendo até 200 quilos. A grande acaba cedo, a pequena fica.” A demanda vem, principalmente, de restaurantes, o que ajuda a manter o ritmo de vendas. “Eu vendo muito pra restaurante”, resume.
Mas se a venda vai bem, a produção virou um desafio cada vez maior. Lourimar relata a presença de uma doença que pode comprometer plantações inteiras em pouco tempo. “Se dá em um pé, dá no plantio todo. Eu já perdi três mil pés carregados”, diz. Para não ficar totalmente no prejuízo, ele adotou uma estratégia própria. “Eu faço três plantios por ano. Acerto dois, erro um. Porque dá o mal.” Segundo ele, há produtores que já encontraram formas de controle, mas o conhecimento não é compartilhado. “Tem produtor que tem o remédio, mas não ensina”, afirma.
Outro fator decisivo é a água. Em um estado onde o verão castiga a produção, ter acesso à irrigação faz toda a diferença. “Quem tem água produz. Quem não tem, perde. A maioria aqui não tem”, explica. No caso dele, um igarapé dentro da propriedade garante a continuidade da lavoura. Ainda assim, fatores externos já impactaram sua produção. “Bateram muito veneno com avião… aí acabou muita coisa”, relata, ao lembrar mudanças que afetaram culturas anteriores.

Apesar das dificuldades no campo, o retorno financeiro ainda compensa — e surpreende. “É difícil de domingo eu não levar mil, mil e quinhentos reais pra casa. Livre”, diz. Sem formação além do ensino fundamental, ele afirma que não trocaria a banca por um emprego formal. “Eu não troco isso aqui por emprego nenhum.” Foi com esse trabalho que construiu patrimônio, inclusive casas. “Fiz cinco casas com o dinheiro daqui”, conta, ao falar das escolhas pessoais ao longo da vida.
Sem filhos, Lourimar segue sozinho na rotina, mas com apego ao que construiu. A aposentadoria já é uma possibilidade, mas não significa parar. “Vou me aposentar e continuar trabalhando. Eu gosto disso aqui.” Ao olhar para trás, vê uma trajetória de esforço contínuo, atravessando gerações, mudanças e dificuldades. E, ao pensar no futuro, não fala em expansão nem em novos planos. Resume em poucas palavras: “Só quero saúde e continuar trabalhando.”
