Conab anuncia compra de R$ 106 milhões em leite em pó para conter crise no setor

Foto: Internet 

Foto: Internet 

A decisão do governo federal de investir até R$ 106 milhões na compra emergencial de leite em pó reacende o debate sobre a crise enfrentada pelos produtores de leite no Brasil, pressionados pelo excesso de oferta e pela queda nos preços pagos ao campo. A medida foi anunciada pela Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) e tem como objetivo retirar parte do excedente do mercado para ajudar a equilibrar os valores pagos aos produtores, especialmente da agricultura familiar.

Ao todo, a Conab pretende adquirir mais de 2,5 mil toneladas de leite em pó, volume equivalente a cerca de 20 milhões de litros de leite in natura. A operação será realizada por meio do Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), permitindo a compra direta de cooperativas e associações de agricultores familiares, sem necessidade de licitação e com execução imediata.

Além do impacto econômico, o leite em pó adquirido será destinado a populações em situação de vulnerabilidade alimentar, reforçando programas sociais e ações de combate à insegurança alimentar. O preço de referência da operação gira em torno de R$ 41,89 por quilo, valor calculado com base nos custos de produção e nos preços médios de mercado.

No Acre, leite ainda enfrenta gargalos estruturais

Embora a compra emergencial anunciada pelo governo federal ajude a aliviar a crise em estados com maior escala produtiva, no Acre o desafio é mais profundo e estrutural. A bacia leiteira acreana ainda convive com baixa produção diária, custos elevados e dificuldade de acesso ao mercado — realidade reconhecida pelo secretário de Estado de Agricultura, José Luiz Tchê.

Em entrevista ao podcast Correio Em Prosa, o secretário afirmou que o estado precisa avançar em volume para garantir sustentabilidade à cadeia produtiva. “Nós precisamos chegar a pelo menos 100 mil a 120 mil litros de leite por dia para ter uma indústria forte no Acre”, afirmou.

Segundo Tchê, a produção ainda está concentrada em pequenos produtores, muitos deles dependentes de políticas de compra institucional para manter a atividade. “É uma atividade difícil, que exige muito trabalho, e se o produtor não tiver apoio, ele acaba desistindo”, destacou.

Para enfrentar os gargalos, a Secretaria de Agricultura aposta em três frentes principais: melhoramento genético do rebanho, recuperação de áreas degradadas e redução de custos na produção. Entre as ações citadas estão a distribuição de doses de sêmen para elevar a produtividade por animal, apoio técnico direto ao produtor e a entrega de placas solares para reduzir gastos com energia na ordenha e no resfriamento do leite. “Produzir mais, com menos custo, é o caminho para manter o produtor no campo”, disse.

Outro entrave apontado pelo secretário é a burocracia sanitária, que acaba afastando pequenos produtores da formalização, especialmente na produção de queijos e derivados. “Muitas vezes o produtor se fecha porque tem medo da fiscalização. Falta orientação, falta presença do Estado como parceiro”, avaliou.

Para Tchê, sem políticas públicas contínuas e estruturantes, medidas emergenciais ajudam, mas não resolvem sozinhas o problema. “Se a gente não cuidar da base, o risco é perder produtores e enfraquecer ainda mais a nossa bacia leiteira”, concluiu.

Compartilhar