Rio Branco, Acre - sábado, 07 março, 2026

Censo Escolar 2024 expõe retrocessos no Acre

Foto web

EDUCAÇÃO EM ESTADO DE ABANDONO

Queda nas matrículas, evasão crescente, infraestrutura precária e investimentos insuficientes marcam o cenário alarmante da educação acreana. Governo e Secretaria de Educação permanecem inertes diante de uma crise cada vez mais profunda.

Os dados do Censo Escolar 2024, divulgados pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), escancaram um cenário dramático e que se agrava a cada ano na educação pública do Acre. O estado, que historicamente enfrenta desafios na área, apresentou neste ano uma retração expressiva em indicadores fundamentais como número de matrículas, permanência escolar e infraestrutura das unidades de ensino. As estatísticas, longe de surpreender, apenas confirmam o que já é evidente nas salas de aula e nos depoimentos de profissionais da rede: o abandono da educação pública.

Em comparação com o ano anterior, o Acre registrou uma queda de 4,7% no número total de matrículas em todas as etapas da educação básica. Foram mais de 8.500 alunos a menos entre 2023 e 2024, sendo o ensino fundamental a etapa mais afetada. Nos anos finais desse segmento, o número de estudantes caiu de 62.000 para pouco mais de 59.000 — um dado que acende um alerta sobre a continuidade dos estudos e o risco real de uma geração interromper sua formação básica.

Ainda mais grave é o aumento da evasão escolar, que cresceu 12% em relação ao ano anterior. Estima-se que mais de 9.500 estudantes deixaram de frequentar as aulas ao longo do ano letivo de 2024. O dado, embora alarmante por si só, ganha contornos ainda mais preocupantes quando comparado a estados vizinhos como Rondônia e Amazonas, que conseguiram manter ou até reduzir seus índices de evasão no mesmo período.

A falta de políticas públicas eficazes, aliada à ausência de programas consistentes de combate à evasão, ajuda a explicar o cenário. O programa de busca ativa escolar, por exemplo, encontra-se praticamente desarticulado em vários municípios do estado. Em muitos deles, sequer há agentes ou recursos disponíveis para realizar visitas e tentativas de reintegração escolar.

Estrutura defasada e sem suporte tecnológico

O Censo também escancara a precariedade da infraestrutura escolar no Acre. Quase 30% das escolas estaduais ainda funcionam sem acesso regular à internet, dificultando a realização de atividades pedagógicas que dependem de tecnologia — uma exigência cada vez mais presente no contexto educacional contemporâneo. Além disso, cerca de 40% das escolas não possuem bibliotecas, e o número de laboratórios de ciências caiu, quando deveria estar em expansão.

Nas zonas rurais, a situação é ainda mais dramática. Em muitas localidades, os alunos enfrentam transporte irregular, escolas improvisadas e escassez de material didático. A promessa de modernização das escolas com tecnologia e acessibilidade não saiu do papel, e o pouco que foi implantado nos centros urbanos ainda está longe de atender à demanda da comunidade escolar.

Investimento abaixo da média nacional

Em 2024, o Acre destinou R$ 3.050 por aluno da rede pública, valor inferior à média nacional, que gira em torno de R$ 3.800. Esse subfinanciamento compromete diretamente a qualidade do ensino, a manutenção das escolas, a valorização dos profissionais da educação e a aquisição de materiais e equipamentos essenciais.

A falta de investimentos também afeta diretamente os profissionais da educação. Os professores continuam enfrentando salários defasados, falta de formação continuada e sobrecarga de trabalho. A ausência de concursos públicos nos últimos anos resultou em um quadro instável, com alta rotatividade de contratados e acúmulo de funções. A evasão, neste caso, não é só dos alunos — professores também estão abandonando as salas de aula por falta de perspectivas.

Governo e Secretaria de Educação: silêncio e inércia

Diante de números tão contundentes, o que se espera das autoridades é um posicionamento claro e ações imediatas. No entanto, nem o Governo do Estado nem a Secretaria de Educação se pronunciaram oficialmente sobre os dados do Censo até o momento. O silêncio ecoa como mais uma prova da negligência com o setor.

A gestão estadual segue marcada por uma postura reativa e não propositiva. Programas são anunciados com grande aparato de marketing, mas poucos sobrevivem além do primeiro semestre letivo. A falta de planejamento estratégico e a troca frequente de cargos na pasta da Educação dificultam a continuidade de políticas públicas eficazes.

O atual secretário de Educação, Aberson Carvalho, tem sido alvo de críticas por parte de educadores, sindicatos e conselhos escolares, que apontam falta de diálogo com a categoria, ausência de medidas estruturantes e gestão centralizada e pouco transparente. “É uma gestão que governa à distância da realidade das escolas. Estamos gritando por socorro há anos e ninguém escuta”, desabafa uma diretora de escola da Baixada da Sobral, em Rio Branco.

 

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