BR-364: A estrada que o Acre carrega nas costas e Brasília empurra com a barriga

Foto Divulgação

A audiência pública da Comissão de Infraestrutura do Senado, realizada na quarta-feira, 21, deu palco ao que já é um drama antigo: a precariedade da BR-364 entre Rio Branco e Cruzeiro do Sul. Enquanto o ministro dos Transportes, Renan Filho, detalhava um plano técnico com cronograma flexível e verbas condicionadas, o senador Alan Rick (União Brasil–AC), por sua vez, falava com a autoridade de quem percorre a estrada com frequência e escuta, de perto, a angústia de quem depende dela para viver.

Na teoria, a rodovia é o principal elo de integração entre o Acre e o resto do país. Na prática, tem sido um abismo. A cada inverno amazônico, o asfalto desaparece e surgem os mesmos buracos, os mesmos vídeos de caminhões atolados, os mesmos pedidos de socorro — e as mesmas promessas.

“A BR-364 não é só uma estrada. É o único elo de quem vive no Juruá com o restante do Brasil. Hoje ela representa insegurança, risco de morte e isolamento”, denunciou Alan Rick, em tom duro, olhando diretamente para o ministro.

A resposta veio em tom técnico, mas não insensível. Renan Filho reconheceu o colapso do trecho e admitiu que a rodovia entrou em estado de alerta no radar do Ministério dos Transportes. “A BR-364 está no nosso plano. Prevemos ações paliativas imediatas e estudo técnico para reestruturação completa da rodovia. A meta é lançar um edital ainda este ano.”

Mas o problema não é novo. E o setor que mais sangra com a precariedade da estrada é o agronegócio familiar — aquele que não estampa capas de revistas, mas que abastece feiras, hospitais e escolas com café, mandioca, banana, leite e hortaliças. Sem estrada, o produtor rural não escoa. Sem escoamento, há perda. E com perda, não há renda.

“A cada buraco na BR, morre um pedaço do desenvolvimento do Acre”, reforçou o senador.

Além da urgência logística, Alan Rick pressionou o governo federal sobre os recursos que a própria bancada do Acre destinou à infraestrutura. Segundo ele, R$ 600 milhões foram garantidos por emendas da bancada — e parte carimbada para a BR-364. “A população quer saber: onde estão esses recursos? Onde estão as máquinas?.”

A audiência também ventilou a possibilidade de concessão da BR-364, mas com ressalvas. O ministro afirmou que o modelo está em análise e que “jamais será feito sem diálogo com a sociedade acreana”. Alan Rick reagiu com prudência: “Concessão não pode significar pedágio para quem já está sufocado.”

No final, ficou claro que o governo está ouvindo. Mas no Acre, o povo quer mais que escuta — quer estrada.

O impacto da BR-364 no produtor rural:

– Custos de transporte aumentam até 60% no inverno;

– Perda média de 30% da produção agrícola por falta de escoamento adequado;

– Cidades como Feijó, Tarauacá e Cruzeiro do Sul enfrentam isolamento logístico frequente;

– Produtores relatam prejuízos de até R$ 20 mil por safra por conta da estrada.

A BR-364 se tornou o símbolo da distância — não apenas geográfica — entre Brasília e o Brasil real. Entre o relatório técnico e o barro está o produtor que carrega o Acre nas costas.

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